quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

O outro lado da "festa"...

Nas palavras do leitor David Ribeiro, no sítio Carta Capital, o texto a seguir é "Consciente e muito bem articulado. Revela muito de nossa identidade arrogante. Como identificar-se é sentir-se parte de algo, todos aqui acabam comprando ideias provincianas de um tempo que já passou. Se a cidade – e o estado – querem fazer jus à fama de terra das oportunidades, deve aprender a olhar ao seu redor e notar que sem ações conjuntas e solidariedade é impossível fazer parte de uma federação.De que vale ufanar-se de tantas riquezas materiais se o espírito se petrificou? Concordo sim: havemos de aproveitar o momento de comemoração para pensarmos quem somos nós e se essa identidade baseada em valores individualistas e prepotentes realmente nos une ou nos faz submergir a cada dia. A resposta é clara – é insustentável a permanência das formas atuais de vida. Ainda há tempo de transformarmo-nos – basta a força de vontade."

Com a palavra, Leonardo Sakamoto. 



Parabéns, São Paulo! Você continua injusta
Blog do Sakamoto

Gosto de viver nessa cidade. De acordar, insône, às quatro da amanhã e ter a certeza de que dá para ir em algum lugar. Assistir o filme ou a peça de teatro que quiser sem ter que pegar uma ponte aérea. Rodar o mundo pelos diferentes gostos de seus restaurantes. Encontrar na diversidade de origens, cores e formas pessoas tão interessantes quanto posso imaginar. De saber que a informação e o conhecimento fluem rápido, de fora ou de dentro, para a cidade.
Posso rodar o país e o mundo mas invariavelmente volto para aí, meu porto seguro, onde me identifico, onde as coisas fazem sentido. Onde meus amigos, emoldurados pela cidade, me lembram através do reflexo que vejo neles quem eu sou, de onde vim, para onde vou. Nasci aí, mas o mais importante é que adotei a cidade depois que aprendi a andar com as próprias pernas. Ser paulistano não tem a ver com o local onde você teve o cordão umbilical cortado, mas onde você amarrou seu burro.

Amo São Paulo e, por isso mesmo, sinto um aperto no peito. Como posso gostar de um lugar onde o povo não aprendeu a ser cidadão, onde os eleitos se furtam a cuidar da pólis, que pensa que só porque é maior e mais rico é melhor do que o resto do país, que insiste em se afirmar como reserva moral e guia econômico dos outros estados, que acredita piamente ter sido incumbido de uma missão divina de guiar o Brasil para o seu futuro, que tem colo lema que ostenta a sua bandeira “Non Ducor Duco” (Não sou conduzido, conduzo)? Uma cidade que joga para longe os pobres, traz para perto os endinheirados, bate na sua população de rua, espanca homossexuais e ainda reclama da selvageria que ocorre além de Queluz?
O “paulistanismo”, o nacionalismo paulista, funciona como uma espécie de seita radical para os seus adeptos. Mesmo as pessoas mais calmas viram feras, libertando uma fúria bandeirante que parecia, historicamente, reprimida dentro do peito. O pessoal que vira de nome de avenida, escola, praça, escultura, Palácio de Governo. Nossos heróis são Domingos Jorge Velho, Antônio Raposo Tavares, Fernão Dias Paes Leme, Manuel Preto, Bartolomeu Bueno. Repito o que aqui já disse, o fato de São Paulo ter escolhido os bandeirantes como heróis diz muito sobre o espírito do estado.

As pessoas não entendem como um neto de imigrantes, com cara de japonês, paulistano com sotaque carregado e que foi estudante da USP pode escrever coisas assim. Bem, se você gosta de algo e vê problemas nela, tem duas opções: a) ignora tudo e cria um mundo de fantasia na cabeça; b) critica e atua para construir alternativas. Mas, cuidado ao escolher “b”, pois quem chama para o enfrentamento de idéias e propõe mudança no status quo é taxado como baderneiro em São Paulo.

Logo após a fundação da vila de São Paulo de Piratininga, José de Anchieta, com a ajuda de índios catequizados, ergueu um muro de taipa e estacas para ajudar a mantê-la “segura de todo o embate”, como descreveu o próprio jesuíta. Os indesejados eram índios carijós e tupis, entre outros, que não haviam se convertido à fé cristã e, por diversas vezes, tentaram tomar o arraial, como na fracassada invasão de 10 de julho de 1562. Ao longo dos anos, a vila se expandiu para além da cerca de barro, que caiu de velha. Vieram os bandeirantes já supracitados, que caçaram, mataram e escravizaram milhares de índios sertão adentro. Da África foram trazidos negros, que tiveram de suportar árduos trabalhos nas fazendas do interior ou o açoite de comerciantes e artesãos na capital. No início do século 19, a cidade tornou-se reduto de estudantes de direito, que fizeram poemas sobre a morte e discursos pela liberdade. Depois cheirou a café torrado e a fumaça de chaminé, odores misturados ao suor de imigrantes, camponeses e operários.

Mas, apesar da frenética transformação do pequeno burgo quinhentista em uma das maiores e mais populosas metrópoles do mundo, centro financeiro e comercial da América do Sul, o muro ainda existe, agora invisível. Só quem não quer enxergar vê na capital paulista uma terra em que todos têm direitos e oportunidades iguais.

Eu disse no último 9 de julho e reafirmo que a esperança de São Paulo é que uma nova geração, liberal em costumes, progressista politicamente, consciente com relação ao meio ambiente e aos direitos sociais e civis, menos arrogante e com uma atuação realmente federalista, consiga emergir com força em meio à decadência quatrocentona, travestida de modernidade ao longo do século 20, que ainda reina.

Se houve melhora na maneira como a administração municipal trata os mais humildes, isso se deve à sua própria mobilização, pressão e luta e não a bondades de supostos iluminados ou da esmola das classes mais abastadas. Até porque nossos “grandes líderes” naufragam em tempos de chuva e são reduzidos a pó em tempos de seca.

Baseado nisso, eu que não sou pessimista, mas realista, neste 25 de janeiro me encho de forças não sei de onde e peço para acreditarmos em São Paulo, uma vez que a semente da mudança que vai conduzi-la para um lugar melhor, mais justo, está dentro dela mesma. Tenho a certeza de que se a política higienista do município que arrota grandeza não acabar com aqueles que há mais de quatro séculos são “indesejados”, eles vão assumir essa mudança, tomando a rédea de suas vidas, e mudando as nossas para melhor. Pois enquanto a maior parte dos seus habitantes estiver do lado de fora do muro invisível que cerca a cidade, comemorar essa data significa um ato de memória e de luta e não um momento de festa.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Parabéns, São Paulo!


São Paulo completa dia 25 de Janeiro de 2011, 457 anos de sua fundação. Em 25 de janeiro de 1554, nascia a maior e mais rica metrópole do Brasil. A povoação de São Paulo de Piratininga surgiu com a construção de um colégio jesuíta, pelos padres portugueses Manuel da Nóbrega e José de Anchieta, no alto de uma colina, entre os rios Anhangabaú e Tamanduateí.

O nome “São Paulo” foi escolhido porque o dia da fundação do colégio foi 25 de janeiro, dia no qual a Igreja Católica celebra a conversão do apóstolo Paulo de Tarso, conforme informa o padre José de Anchieta em carta aos seus superiores da Companhia de Jesus:
 
"A 25 de Janeiro do Ano do Senhor de 1554 celebramos, em paupérrima e estreitíssima casinha, a primeira missa, no dia da conversão do Apóstolo São Paulo, e, por isso, a ele dedicamos nossa casa!"
 
O povoamento da região do Pátio do Colégio teve início, em 1560, quando Mem de Sá, governador-geral do Brasil, na Capitania de São Vicente, ordenou a transferência da população da Vila de Santo André da Borda do Campo, que fora criada por Tomé de Sousa em 1553, para os arredores do colégio.
 
Para quem ainda não sabe, há atrações culturais programadas para hoje, em diversos pontos da cidade. Clique nos atalhos abaixo e confira:
 

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

A alegria de ser você mesmo

Muita gente quer atingir a meta sem ter saído do ponto de partida.
Querem chegar a ser alguma coisa sem ter feito coisa nenhuma para isso.
Há ainda os que caminham na direção contrária. Em busca de alegria, alimentam-se de sensacionalismo mórbido.
Querem a paz, mas buscam aceitação e ruído.
Querem a paz para o mundo, mas introduzem a guerra em casa e na família.
Querem desenvolver uma personalidade forte, mas vivem amarrados aos convencionalismos sociais.
Querem saber muita coisa sem nada estudar.
Querem ser amados sem amar, sem aumentar o amor em seu coração.
Querem ser ouvidos, mas não ouvem.
Querem a saúde, mas envenenam o corpo e a mente.
Querem chegar a algum lugar sem sair do seu casulo.
Querem o mundo melhor, mas não melhoram o seu pequeno mundo.
Querem justiça, mas são injustos.
Se você quer alcançar um fim, precisa usar os meios.
Se você quer atingir a meta, decida-se a partir.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Foco no problema e foco na solução

PROBLEMA É SÉRIO!!!
O sujeito vai ao psiquiatra:
- Doutor - diz ele - estou com um problema: Toda vez que estou na cama, acho que tem alguém embaixo. Aí eu vou embaixo da cama e acho que tem alguém em cima. Pra baixo, pra cima, pra baixo, pra cima. Estou ficando maluco!
- Deixe-me tratar de você durante dois anos, diz o psiquiatra. Venha três vezes por semana, e eu curo este problema.
- E quanto o senhor cobra? - pergunta o paciente.
- R$ 120,00 por sessão - responde o psiquiatra.
- Bem, eu vou pensar - conclui o sujeito.
Passados seis meses, eles se encontram na rua.
- Por que você não me procurou mais? - pergunta o psiquiatra.
- A 120 paus a consulta, três vezes por semana, durante dois anos, ia ficar caro demais, aí um sujeito num bar me curou por 10 reais.
- Ah é? Como? - pergunta o psiquiatra.
O sujeito responde:
- Por R$ 10,00 ele cortou os pés da cama...

domingo, 9 de janeiro de 2011

São as águas de março fechando o verão...

Escrevi este texto exatamente no finalzinho de março de 2005 (final do verão aqui no Brasil), época em que, após intensas chuvas, muitas famílias foram vitimadas por deslizamentos de terra, enchentes, etc. Lembrei-me da música de Elis Regina e partilhei a seguinte reflexão (com as devidas adaptações).

Neste começo de verão – a "estação da luz" –, chove bastante aqui em São Paulo. O assunto que domina as conversas e os noticiários são as chuvas e suas supostas consequências trágicas.

Geralmente, a chuva é encarada como a grande vilã; ao primeiro sinal de “tempo ruim”, muitas famílias já ficam apreensivas, com medo de que venham a perder seus lares, pertences e até as vidas suas e das pessoas queridas, seja em decorrência de deslizamentos, seja em decorrência das enchentes. A natureza não é perversa, e nem essas famílias têm culpa de se submeterem a esses riscos. A chuva é essencial para a vida na terra, pois ela renova as fontes de água. Aqui em São Paulo, passamos por um longo tempo de estiagem e quase faltou água.

Para a religião cristã, a chuva e o orvalho são sinais da bênção de Deus, são dádivas para o povo:
“Deus te dê o orvalho do céu, a exuberância da terra, e fartura de trigo e de mosto.” (Gn 27,28)
“No deserto jorrará água e torrentes na estepe. A terra ardente se transformará em um lago e a região seca em fontes de água.” (Is 35,6—7)

Anchieta Dali, um poeta do Nordeste, já dizia numa das músicas interpretadas pelo cantor-forrozeiro Flávio José:

“Desce irrigando a terra, botando em cada fruto o seu sabor;
Mata a sede de quem sonha, pintando e dando cheiro a cada flor.
Manjar para a visão do sertanejo (...) Meus “zóim”, às vezes, chora de feliz!
Chuva, lava e cura mágoas. Esse rio deságua na cacimba do amor...

Então, o que faz com que essas famílias se sujeitem a arriscarem suas vidas na beira de córregos e nos morros das grandes cidades? Muitas dessas famílias eram camponesas, tinham o seu pedacinho de chão, e foram expulsas de suas terras por latifundiários ou por não terem mais condições de permanecer lá. Outras vieram de regiões pobres do Brasil (principalmente o Nordeste). Outras, ainda, vivem nesses lugares arriscados pela necessidade de estarem próximos aos seus lugares de trabalho (pois se morassem longe ou seriam despedidos de seus empregos ou não teriam como pagar a condução até o trabalho).

Enfim, seja qual for o motivo, elas vieram e/ou estão em busca de uma vida melhor. Mas vivemos numa sociedade capitalista e ela, sim, muitas vezes, se mostra perversa: às vezes, as famílias querem regressar para sua terra natal, mas não têm condições para isso; outras famílias, por sua vez, continuam vivendo em condições precárias nas metrópoles porque em seu lugar de origem iriam estar em situação pior (portanto, acabam escolhendo “dos males, o menor”. A lógica desse sistema é de "respeito aos contratos" com os ricos (responsabilidade fiscal), mas de desrespeito com a vida e a dignidade das pessoas e com a natureza (irresponsabilidade social e ambiental).

É urgente, em nosso país, uma ampla política de geração de emprego e melhor distribuição de renda, aliada às reformas urbana e agrária eficientes.

Com uma reforma agrária eficiente, os camponeses viverão com dignidade no campo, as grandes cidades não ficarão tão inchadas, será possível fazer um planejamento urbano eficiente e as pessoas que vivem nas cidades terão uma qualidade de vida melhor, além de uma alimentação sadia e que corresponda às reais necessidades e tradições dos brasileiros.

E se houver uma reforma urbana de verdade, não haverá mais imóveis desocupados, esperando que sejam valorizados; será dada absoluta prioridade ao transporte público, e também na melhoria de infra-estrutura das periferias.

Tudo isso só será possível com uma nova orientação da política econômica: que a política econômica NÃO ESTEJA ORIENTADA PARA ATENDER AOS INTERESSES DE POUCOS AFORTUNADOS, e sim que ela SIRVA COMO INSTRUMENTO DE PROMOÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS, DO DESENVOLVIMENTO NACIONAL (Constituição Federal, "Dos Princípios Fundamentais") E DE "UMA NOVA GLOBALIZAÇÃO, SOLIDÁRIA E SOBERANA".

Leia também o texto: "Chuva não castiga ninguém" (aqui neste sítio)