segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

O centenário de Luiz Gonzaga


No ano do centenário de Luiz Gonzaga (que se completará no dia 13 de dezembro), o baião, gênero que consagrou o sanfoneiro, mantém destaque no cenário musical e mostra que permanece vivo na MPB

“Eu vou mostrar pra vocês/ Como se dança o baião/ E quem quiser aprender/ É favor prestar atenção”. Depois desse manifesto lançado na canção Baião, ninguém ficou alheio ao novo gênero que Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira acabavam de apresentar em 1946. O ritmo estourou, conquistou multidões, colocou o Nordeste no cenário da música popular brasileira e ainda hoje influencia gerações.

A canção foi gravada pela primeira vez pelo conjunto Quatro Ases e Um Coringa, da gravadora Odeon. A participação de Gonzaga, ou Lua, como era conhecido, restringiu-se a acompanhar o grupo com sua sanfona. A música estourou e, em 1950, Lua gravava a sua versão. Assim, Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira consagravam-se o rei e o doutor do baião, respectivamente.

Apesar do sucesso, Lua não foi o primeiro a levar a música nordestina para o sul do país. Antes dele, outros tentaram. Exemplo disso é o sucesso Luar do Sertão, consagrada composição de João Pernambuco com letra de Catulo da Paixão Cearense. Além de Lauro Maia, maestro e compositor cearense, que introduziu o balanceio, ritmo produzido pelos conjuntos de zabumba, sanfona, pífaro e triângulos do Nordeste. Mas nenhum deles alcançou a mesma projeção de Luiz Gonzaga.

O rojão, como também é chamado o gênero criado por Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, nasceu da tradição popular, de um pequeno trecho musical executado pelas violas dos repentistas durante os intervalos entre um e outro desafio ou à espera da inspiração, como explica o historiador José Ramos Tinhorão no livro Pequena História da Música Popular – Da Modinha ao Tropicalismo (Art Editora, 1986).

“Quando eu toquei o baião para ele (Humberto Teixeira), saiu a ideia de um novo gênero. Mas o baião já existia como coisa do folclore... O que não existia era uma música que caracterizasse o baião como ritmo”, declarou Lua à revista Veja, em 1972, sobre o processo de estilização do novo tipo de canção popular e, principalmente, como ritmo de dança.
Momento certo

A partir da década de 1950, o processo de migração crescia de forma acelerada e, duas décadas depois, o Brasil era um país urbano. Nesse contexto, Gonzaga encontrou o momento e contexto favoráveis à divulgação da música nordestina: o baião, o xaxado, o coco, o xote...

“Ele trouxe um novo modo de olhar para o sertão, o Nordeste, a cidade, a migração e a condição do migrante”, explica a professora da Universidade Federal do Ceará e autora de ?Luiz Gonzaga, o Sertão em Movimento (Editora Annablume, 2000), Maria Sulamita de Almeida Vieira. A música Lá no Meu Pé de Serra, de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, demonstra como a dupla falava diretamente aos milhares de nordestinos que deixavam a sua terra natal. Lá no meu pé de serra/ deixei ficar meu coração / Ai, que saudades tenho/ Eu vou voltar pro meu sertão...

Não foram poucos os músicos que contribuíram para levar o forró nordestino ao grande público. Armados com a santa trindade do baião: sanfona, zabumba e triângulo, inúmeros trios surgiram e seguiram o exemplo de Luiz Gonzaga. E o seu reinado só cresceu. A cantora Carmélia Alves foi aclamada como a “rainha do baião”. Claudete Soares tornou-se a princesa e Luiz Vieira, o príncipe do baião.
Repercussão internacional

O baião também rompeu fronteiras nos anos de 1950, em especial por conta de O Cangaceiro, de Lima Barreto (1953), que ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cinema de Cannes como melhor filme de aventura e também menção honrosa pela trilha sonora, que entre outras trazia a toada Muié Rendera, música de Zé do Norte, interpretada por Vanja Orico.

Na mesma década, o compositor norte-americano Burt Bacharach veio ao Brasil acompanhando a atriz alemã Marlene Dietrich. “Ele ouviu o baião e se encantou. Entre suas canções de sucesso dos anos de 1960 está Do You Know The Way to San Jose. É muito forte a presença do baião. Só falta o triângulo”, comenta o jornalista e historiador, Paulo César de Araújo, autor do livro Eu Não Sou Cachorro, Não (Editora Record, 2005).

O baião instrumental de Waldir Azevedo, Delicado, teve cinco versões gravadas em Buenos Aires, vendendo mais de 130 mil cópias em toda a Argentina, segundo Tinhorão. A música também passou a fazer parte do repertório dos maestros norte-americanos Stan Kenton e Percy Faith.

Considerado um grande divulgador do novo gênero, Humberto Teixeira buscou promovê-lo no exterior, levando à Europa caravanas de músicos brasileiros, mas sem grandes resultados. Como analisa Tinhorão, o ritmo estilizado por Luiz Gonzaga (assim como ocorreu com a Bossa Nova) não tinha condições de competir com a indústria norte-americana de discos e com a novidade do rock, que tinha em Elvis Presley seu maior ícone. Somente na década de 1980, Gonzaga, já consagrado pelo público e pela crítica, iria apresentar sua obra nas grandes casas de espetáculo de Paris.

Pra onde tu vai, baião?

Depois de rodar o país e fazer muito sucesso, o fim dos anos de 1960 não trouxe bons ventos ao baião. O rádio já estava em declínio. Começava a era da televisão. E, no Brasil desenvolvido, urbano, propagado por Juscelino Kubistchek, a música nordestina perdeu espaço.

Outro nordestino, esse de Juazeiro, na Bahia, entrava em cena e já anunciava que algo novo estava por vir. Era João Gilberto, que em 1959 lançou Chega de Saudade, seu primeiro disco com duas músicas: a que dá nome ao álbum e Bim Bom: “É só isso o meu baião / E não tem mais nada não / O meu coração pediu assim, só...”.

Além da Bossa Nova, que chegava com força, havia ainda os cabeludos da Jovem Guarda. Sem espaço na TV, nos jornais e nas rádios das capitais, Luiz Gonzaga se refugiou no interior do país, onde sua música ainda era valorizada. Gravou, vendeu disco, tocava em circos, comícios e ganhou menos dinheiro, mas não sem reclamar: “Pra onde tu vai, Baião? / Eu vou sair por aí / Tu vais por que, Baião? / Ninguém me quer mais aqui”, canção de Sebastião Rodrigues e de João do Vale.

Este último já havia sido parceiro de Lua em 1957, com O Cheiro de Carolina e mais tarde seria reconhecido com suas músicas de protesto, em especial por Carcará, que teve interpretação brilhante de Maria Bethânia no teatro Opinião, ao abordar o tema da migração dos nordestinos.

Outro exemplo de resistência foi o Xote dos Cabeludos, de Gonzaga e José Clementino: “Atenção senhores cabeludos / Aqui vai o desabafo de um quadradão / Cabra do cabelo grande / Cinturinha de pilão / Calça justa bem cintada / Costeleta bem fechada / Salto alto, fivelão / Cabra que usa pulseira / No pescoço medalhão / Cabra com esse jeitinho / No sertão de meu padrinho / Cabra assim não tem vez não...”.

O baião demorou a ser valorizado. Na avaliação de Paulo César de Araújo, Gonzaga alcançou grande sucesso popular, ficou na memória afetiva das pessoas, vendeu muitos discos, mas o reconhecimento por uma elite intelectual veio quando ele já era sexagenário. “O bom era a Época de Ouro da MPB, que vai de 1930 a 1945, com nomes como Noel Rosa, Wilson Batista, Cartola e Nelson Cavaquinho. Quando surge a Bossa Nova, em 1959, o baião ficou no meio, entre a tradição e a modernidade. Com isso passou a ser tratado como um momento menor da nossa música”, lamenta o jornalista.
A volta da Asa Branca

Mas, se o próprio João Gilberto citou o baião ao lançar a sua bossa, talvez nem tudo estivesse perdido para Luiz. No final da década de 1960, os festivais traziam novos nomes, muitos deles do Nordeste, que foram influenciados pelo furacão Luiz Gonzaga.

“Ele foi para o Brasil o que Elvis foi para os americanos. Sem dúvida, ele é um dos gigantes da nossa música. Está no mesmo patamar que João Gilberto e Pixinguinha”, compara Paulo César. Em 1968, os baianos Caetano Veloso e Gilberto Gil já traziam Luiz Gonzaga em sua memória afetiva e o declararam em diversas entrevistas. Com isso, o baião ganhou o aval de dois jovens expoentes da MPB.

Além disso, um boato do jornalista Carlos Imperial contribuiu para que o velho Lua voltasse à mídia. Circulava a notícia de que os Beatles haviam regravado Asa Branca. Mas quem retomou o clássico foi Caetano Veloso, ao lançar na Inglaterra o seu primeiro disco concebido e gravado no exílio. No repertório, seis canções em inglês, com exceção de Asa branca, na qual Caetano exprime profunda tristeza por estar longe do Brasil. Luiz Gonzaga e o baião voltam ao cenário da MPB.

A semente já havia sido plantada. Isso porque a geração de músicos que surge na década de 1970 cresceu ouvindo o gênero perpetuado por Gonzaga. Na lista, destacam-se Fagner, Belchior, Elba Ramalho, Zé Ramalho, Morais Moreira, Alceu Valença, Milton Nascimento, Dominguinhos, entre outros.

Até no rock, Gonzaga vai deixar sua marca. O baiano Raul Seixas apresenta em sua música uma mistura de rock com baião, deixando clara a influência de Elvis e Gonzaga em sua obra: “Tenho 48 quilo certo 48 quilo de baião / Num vou cantar como a cigarra canta / Mas desse meu canto eu não lhe abro mão / Num vou cantar como a cigarra canta / Mas desse meu canto eu não lhe abro mão / Let me sing, let me sing / Let me sing my rock’n’roll...”.

Desde que surgiu, o baião esteve presente nos mais diferentes momentos da MPB, como na Bossa Nova, no Tropicalismo e no Pop Rock Nacional. “A música de Gonzaga continua aí, influenciando direta ou indiretamente as novas gerações”, defende Paulo César de Araújo. As músicas do rei influenciaram o movimento Manguebeat na década de 1990, com Chico Science e a Nação Zumbi, Cordel do Fogo Encantado, Mestre Ambrósio, Lenine, Zeca Baleiro, Paralamas do Sucesso, Marisa Monte, Marcelo Jeneci e tantos outros.

Fonte: Revista E, do SESC
Autor: Assis Ribeiro

P.S.: Em homenagem a Gonzagão, no dia 13 de dezembro comemora-se o DIA DO FORRÓ.


domingo, 18 de novembro de 2012

SUS: Referência internacional (apesar dos problemas)

O Sistema Único de Saúde (SUS) foi criado em 1988, com a promulgação da Constituição Cidadã. A saúde então passou a ser um direito dos brasileiros e dever do Estado. A concepção do SUS é considerada um grande avanço, já que antes não havia garantia formal do direito à saúde: só estavam cobertos pelo antigo "INAMPS" os trabalhadores com carteira assinada (que não chegavam a 40% da população economicamente ativa). Quem trabalhava na informalidade ou não pertencesse à população economicamente ativa eram tratados como indigentes.

Resultado de um processo de lutas, participação e esforços (especialmente do movimento da Reforma Sanitária), o SUS é um projeto de sistema abrangente e de qualidade, é a expressão de um pacto solidário e ético fundamentado no uso coletivo dos recursos existentes para aliviar o sofrimento, evitar a dor, curar doenças e tratar incapacidades.

O SUS que não se vê

Apesar das dificuldades para seu funcionamento, o SUS ainda é um dos maiores sistemas públicos de saúde do mundo. O Brasil é o único país do mundo com mais de 100 milhões de habitantes que assumiu para si o desafio de ter um sistema de saúde nacional, público, universal e gratuito, da vacinação ao transplante.

E é devido a esse modelo que o Brasil é pioneiro e referência internacional no acesso universal ao tratamento de pessoas soropositivas (portadoras do vírus da AIDS). Entre as medidas que possibilitaram essa conquista, está a quebra de patentes do Efavirenz, medicamento de alto custo para o tratamento da síndrome, em 2007. De lá até o final de 2011, foram economizados 97 milhões de dólares com a produção da droga no país. Além do tratamento aos doentes da AIDS, o SUS dá assistência integral e totalmente gratuita para a população de doentes renais crônicos e pacientes com câncer.

No ano passado, o país obteve também o recorde mundial na realização de transplantes em sistema público de atendimento. E ainda em 2011, o Brasil atingiu o índice de mortalidade infantil de 16 mortes em cada 1000 nascidos vivos (em 1990, 58 crianças em cada 1000 nascidas vivas morriam antes de completar 1 ano), graças a melhorias no atendimento médico, vacinação e instrução materna, segundo o Unicef. O SUS cobre ainda o atendimento de doenças crônicas como hipertensão e diabetes, que acometem 80% dos idosos: programa que oferece de 70% a 75% dos medicamentos (gratuitos) para essas duas doenças.
Financiamento abaixo do ideal

O problema é que, para garantir o funcionamento desse sistema, os governos no Brasil destinam menos dinheiro do que seria necessário para a Saúde. Ou seja, temos um sistema universal inscrito em termos jurídico-legais sem o devido suporte financeiro para sua implementação. Com um gasto público médio de 385 dólares por habitante ao ano, apesar de ser a 6ª economia mundial, o Brasil investe menos em saúde que Argentina, Chile, Uruguai, Costa Rica e Cuba. A Inglaterra, com sistema semelhante ao brasileiro, gasta 2.000 dólares por habitante ao ano (5 vezes mais que o Brasil gasta por pessoa). Em números totais, o gasto com ações e serviços públicos de saúde no Brasil aumentou na última década. Esse aumento, contudo, se comparado com a quantidade de recursos públicos aplicados por outros países que têm sistemas universais não seria suficiente para cobrir o sistema anunciado na Constituição Federal de 1988.

Quanto aos convênios particulares, a qualidade de atendimento tende a ser melhor porque, do total gasto com saúde, 53% vai para as operadoras privadas de saúde atenderem apenas 25% dos brasileiros, enquanto que 47% dos gastos com saúde são destinados ao SUS para atender 75% da população. Ou seja, com menos dinheiro, o SUS atende 3 vezes mais pessoas que as operadoras privadas de planos de saúde (no mínimo). Além disso, pessoas que têm plano de saúde acabam tomando vacina, fazendo terapia intensiva e outros procedimentos de alta complexidade no SUS, quando estes são negados pelo plano de saúde; ou são beneficiadas com ações de prevenção e de vigilância sanitária promovidos pelo sistema de saúde pública (como controle de sangue e hemoderivados, registro de medicamentos etc.).

Além disso, os planos privados de saúde, que atendem cerca de 45 milhões de brasileiros, estão longe de representar a solução para  a saúde no Brasil. É  ilusão achar  que os planos prestam serviços de qualidade. Além de custarem caro, muitas vezes negam o atendimento quando o cidadão mais precisa: deixam de fora medicamentos, exames, cirurgias e muitas vezes dificultam o atendimento dos cidadãos idosos, dos pacientes crônicos, dos portadores de patologias e deficiências. Alguns donos de planos de saúde já compararam os doentes e idosos a “carros batidos”. Como só visam o lucro, eles preferem ter como “clientes” apenas os jovens e os sadios.
Sugestão de caminho a seguir...

Um movimento nacional em defesa da saúde, intitulado SAÚDE +10 foi lançado em março. Seu objetivo é a coleta de assinaturas para um Projeto de Lei de Iniciativa Popular que assegure o repasse EFETIVO e INTEGRAL de 10% das receitas correntes brutas da União para o SUS. É necessário o mínimo de 1,5 milhão de assinaturas para que o projeto chegue ao Congresso. Com a aprovação desse projeto, os gastos na saúde pública aumentarão em quase 70%.

Fontes:

domingo, 28 de outubro de 2012

Lei da Transparência, serviços e servidores públicos

O editorial do jornalão O Estado de S.Paulo cobrando eficiência nos serviços públicos e maior empenho/qualificação de seus servidores é risível pelo desconhecimento ou ignorância proposital das condições concretas sob as quais funcionam tais serviços e pela tentativa onipresente, por parte de certa mídia da qual o jornal faz parte e de certos setores da sociedade, de jogar a população e os trabalhadores da iniciativa privada contra os trabalhadores públicos. Não se poderia esperar nada diferente disso dessa empresa jornalística... 

Os critérios normais de eficiência aplicáveis às instituições privadas nem sempre podem ser aplicados aos serviços públicos, por diversas razões:
  1. Caráter público e não mercantil dos serviços prestados;
  2. Todos os atos da Administração Pública devem estar SEMPRE vinculadas à lei. Ao mesmo tempo que a vinculação à lei é uma garantia de que haverá o respeito aos princípios que devem orientar a ação do Estado (prevalência do interesse público, publicidade obrigatória da maior parte de seus atos, legalidade, impessoalidade, universalidade em alguns casos, etc.),  é uma garantia de todos nós, cidadãos, pois qualquer ato do Estado somente terá validade se respaldado em lei. Representa um limite para a atuação do Estado, visando à proteção do administrado em relação ao abuso de poder.
  3. Possibilidade de o servidor público perder o cargo por insuficiência de desempenho.
  4. Obrigatoriedade de treinamento periódico e outros requisitos para ascensão dentro das carreiras e para ocupação de funções comissionadas.
  5. Concessão de adicionais de qualificação para aqueles que comprovem participação em ações de treinamento e qualificação do interesse do órgão no qual estão lotados.
  6. Previsão CONSTITUCIONAL (NÃO É AUMENTO) de REVISÃO ANUAL DAS REMUNERAÇÕES dos servidores públicos (art. 37, X da CF), para impedir a perda de poder de compra pela inflação, nos mesmos moldes em que é garantida também pelo texto constitucional a todo trabalhador. No entanto, o mandamento que obriga o administrador público a reajustar as remunerações de seus servidores é descumprido reiteradamente, obrigando os servidores a entrarem em greve.
  7. Gratuidade integral ou modicidade (preços insignificantes e/ou condições mais favoráveis) da quase totalidade dos serviços oferecidos e de boa parte dos atos praticados pelos órgãos federais, excetuadas as taxas especiais para alguns serviços específicos.
  8. Especificidade única de certos serviços, não comparáveis aos da iniciativa privada.
  9. Impossibilidade de atribuir a mentalidade e os critérios do lucro/produtividade/eficiência da iniciativa privada aos serviços públicos, dado o seu caráter social.
  10. Existência de metas e medidas de eficiência próprias, não apenas quantitativas, mas também qualitativas.
Se dá ou não para envolver os trabalhadores públicos nas decisões políticas de cada órgão/poder é outra questão mais intrincada: como isso poderia ser feito? Para que serviria o mandato, nessa hipótese? Político = mero gestor, síndico?

Há mazelas e desmotivação? Sim, em alguns casos até há, muitas vezes pela falta de valorização devido a vários fatores, inclusive ao fato de que o 'patrão' muda de cara e de postura de tempos em tempos, pelo fato de que os que se erigem em arautos da sociedade vivem de fustigar o serviço público ao invés de exigir sua valorização total, pelo fato de que ainda se pode arrochar os servidores - apesar da CF/88 dizer que não... Mas assim mesmo há muitos servidores satisfeitos e motivados e muitos possuem qualificação bem acima da requerida pelo cargo e vários se preparam, por conta própria, para exercer papéis sociais mais prestigiados ou de maior responsabilidade.

Tudo pode melhorar bastante, inclusive nossa mídia, que é uma concessão pública! A lei da transparência deveria valer pra o Bonner, Merval, Faustão, Leitão, Catanhede, Waack, Mitre, Casoy - todos deveriam publicar seus salários também, já que a imprensa é uma atividade concedida e um serviço de interesse público. Seus métodos de trabalho devem ser objeto de discussão e controle social, também - por que não? É concessão de serviço público.
Autor: Flávio Prieto. Coautor: Denilson Lopes

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Antônio Conselheiro: herói, profeta dos desprezados

Belo monte, belo nome
Zé Vicente
Belo monte, belo nome, belo homem conselheiro,
Profeta dos desprezados do Nordeste brasileiro.
Salve a cruz dos resistentes! Salve o Bom Jesus primeiro!

Mais de cem anos passaram, não esqueçamos jamais:
Quem pode esquecer a guerra, que tanto mal sempre traz?
Quem pode esquecer a guerra, que tanto mal só nos faz?

Eu vi Canudos, era um lago só
Nas águas vivas de Cocorobó!

Seu moço, eu canto, eu te conto. Minh'alma pede silêncio
Pra mergulhar na memória que arde como um incêndio.
Mandacaru abre os braços. Clama o velho Inocêncio!

Ouvi as pedras clamando no soluço dos feridos.
Ouvi multidões cantando um canto forte nascido:
Um Belo Monte rebelde,
De um povo jamais vencido.

Eu vi Canudos, era um lago só
Nas águas vivas de Cocorobó!

Canudos vive nas ruas, nas favelas brasileiras,
Nos acampados, sem-terra, nos ambulantes, nas feiras,
Nesses morros rebelados, nessas mulheres guerreiras.

Quem tem olhos veja hoje na profecia de Antônio:
A República dos ricos tem seu deus que é o patrimônio
Seu culto é de luxo e roubo, Velho ídolo - Demônio!

Eu vi Canudos, era um lago só

Nas águas vivas de Cocorobó!

Do corpo crucificado há dois mil anos atrás,
Sangue e água fez-se um rio que não seca nunca mais
Em Canudos ele é lago pra saciar nossa paz

"Só Deus é grande e é Santo", bem pregou o Conselheiro
E esta terra é mãe de todos. Tudo aqui é passageiro.
O que vive eternamente é o belo amor verdadeiro.

Eu vi Canudos, era um lago só
Nas águas vivas de Cocorobó!
Açude de Cocorobó, Canudos
Leia também no Recanto das Letras

quinta-feira, 19 de julho de 2012

As verdadeiras "DEFICIÊNCIAS"...

"Deficiente" é aquele que não consegue modificar sua vida, aceitando as imposições de outras pessoas ou da sociedade em que vive, sem ter consciência de que é dono do seu destino.
"Louco" é quem não procura ser feliz com o que possui.
"Cego" é aquele que não vê seu próximo morrer de frio, de fome, de miséria. E só tem olhos para seus míseros problemas e pequenas dores.
"Surdo" é aquele que não tem tempo de ouvir um desabafo de um amigo, ou o apelo de um irmão. Pois está sempre apressado para o trabalho e quer garantir seus tostões no fim do mês.
"Mudo" é aquele que não consegue falar o que sente e se esconde por trás da máscara da hipocrisia.
"Paralítico" é quem não consegue andar na direção daqueles que precisam de sua ajuda.
"Diabético" é quem não consegue ser doce.
"Anão" é quem não sabe deixar o amor crescer.
E, finalmente, a maior das deficiências é ser miserável, pois "Miseráveis" são todos que não conseguem falar com Deus.

"A amizade é um amor que nunca morre."

Mário Quintana

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Ser corintiano é...

Como diria o grande compositor e corintiano Toquinho:
"Ser corinthiano é ir além de ser ou não ser o primeiro!!!
Ser Corinthiano é ser um pouco mais brasileiro."

Os ANTI tem orgulho pelos títulos dos seus times.
Nós temos orgulho de sermos simplesmente CORINTHIANS!!!
Mesmo com jejum de títulos, sem ter conquistado campeonatos brasileiros ou internacionais importantes, o Corinthians já estava no coração de milhões e milhões de torcedores e tornou-se o time paulista com a maior torcida!!! Quiçá a maior do Brasil (dizem que a maior é a do Flamengo...).
Já que os ANTI fazem questão de títulos, acabou o último argumento que faltava para não duvidarem da grandeza do Corinthians!!!

O QUE IMPORTA É SER CAMPEÃO COM CLASSE!!!
INVICTO, CORINTHIANS SUPEROU RECORDE EM INVENCIBILIDADE...

Não precisaríamos de Libertadores e nem de um estádio próprio para sermos um grande time!!! Porém, é importante comemorarmos esse título, para provar para os ANTI que CORINTHIANS É O TIMÃO!!!

O Corinthians é o CAMPEÃO INVICTO com a mais longa campanha da história da Libertadores: 14 JOGOS, 8 VITÓRIAS E 6 EMPATES!!! Confiram os invictos da Libertadores e suas campanhas:

1960: Peñarol: 7 jogos, três vitórias e quatro empates
1963: Santos: 4 jogos, três vitórias e um empate
1964: Independiente: 7 jogos, cinco vitórias e dois empates
1969: Estudiantes: 4 jogos, quatro vitórias
1970: Estudiantes: 4 jogos, três vitórias e um empate
1978: Boca Juniors: 6 jogos, quatro vitórias e dois empates
2012: CORINTHIANS: 14 JOGOS, 8 VITÓRIAS E 6 EMPATES!!!


domingo, 24 de junho de 2012

Ecumenismo: "organizando a nossa casa", crendo diferente, unidos pelo amor!

Chamamos de ecumenismo a busca da unidade entre as Igrejas cristãs. Quando estão envolvidas outras religiões o processo de entendimento mútuo se chama diálogo interreligioso. Cristãos de diferentes Igrejas são praticantes da mesma religião. Têm uma base comum. Pertencem à mesma grande família de fé.
Temos boas razões para sermos ecumênicos: 
  • Jesus pediu a unidade de seus discípulos e discípulas (João 17,21);
  • Igrejas que se agridem mutuamente prejudicam a pregação do evangelho aos que não creem;
  • O mundo precisa dessa demonstração concreta de que a paz é sempre possível;
  • Igrejas unidas têm mais força para defender a justiça e realizar obras importantes na caridade;
  • Ter amigos é melhor e mais bonito de que ter competidores.
Quatro campos complementares de ecumenismo: 
  • Na vida: são as boas relações de amizade entre pessoas de Igrejas diferentes;
  • Na ação social: são os trabalhos em conjunto para socorrer os necessitados e lutar pela justiça;
  • Na oração: são as celebrações e preces feitas em conjunto ou orações pessoais pela causa da unidade;
  • No diálogo teológico: são os estudos sobre doutrina realizados por teólogos de várias Igrejas, trabalhando juntos na busca de melhores modos de tratar as divergências.
Espiritualidade ecumênica 

O ecumenismo exige um coração voltado para a paz e a valorização do outro. Não basta realizar ações ecumênicas, é preciso ter de fato a espiritualidade do diálogo. Essa espiritualidade exige o cultivo de muitas qualidades, como por exemplo:
  • esperança
  • amor à paz
  • humildade
  • capacidade de ouvir
  • paciência
  • discernimento
  • lealdade
  • alegria ao ver o bem
  • respeito ao outro
Se tivermos essas qualidades não seremos só ecumênicos.
Seremos pessoas melhores!
Uma orientação que pode ajudar:
No essencial: a unidade.
No que é próprio de cada Igreja: a liberdade.
Em tudo: a caridade e a fidelidade a Jesus!

terça-feira, 12 de junho de 2012

Festas juninas e o futuro do mundo

Há quem olhe uma festa popular como mera alienação das difíceis lutas do dia a dia. De fato, no tempo do antigo império romano, cada vez que alguma guerra se aproximava ou uma lei iria tornar mais difícil a vida de todos, a ordem era misturar o pacote de maldades com o que os pensadores do império chamavam de "pão e circo”. Essa fórmula vigora até hoje em certos círculos do sistema opressor. Até hoje, jornais televisivos sem compromisso com a realidade crítica alternam notícias de massacres e crimes com cenas de futebol. Depois de mostrar imagens da seca e fome no nordeste, filma na mesma região algum forró de São João. Por falar em São João, nesses dias, os festejos juninos já tomam conta do Brasil. Eles têm origens pré-cristãs nas mudanças de estação. Na cordilheira peruana, os índios festejam o ano novo andino.

No Brasil, o catolicismo popular promoveu os festejos de Santo Antônio, São João e São Pedro com brincadeiras caipiras, quadrilhas e comidas típicas de cada região. Algumas das danças juninas vieram das cortes da Europa e são hoje o que se chamam "quadrilhas” que ainda usam termos franceses e fazem as pessoas se vestir de caipiras e dançar como a nobreza de outros séculos. Nos casamentos matutos, figuras como padres e juízes da roça são caricaturadas porque só se interessam por dinheiro e poder. Independentemente se tais críticas são justas ou exageradas, elas revelam o modo como as camadas mais empobrecidas do povo podem expressar sua crítica e seu protesto social. Mesmo o fato de considerar Santo Antônio um santo casamenteiro, associar São João Batista com fogueira e brincar com as chaves de São Pedro quebra algo da seriedade sisuda com que se costumam olhar os assuntos do céu e parece que ligam os santos às realidades de cada dia.

Nesse momento, o mundo capitalista está mergulhado em uma crise estrutural. Em vários países da Europa, grupos radicais ameaçam tornar mais rígidas as regras internacionais de migração. Alguns setores religiosos afundam em um fundamentalismo fanático. Conferências da ONU como a Rio 92+20 parecem fadadas ao insucesso. Do outro lado, mesmo que não pareçam, as festas juninas revelam que nosso povo tem uma surpreendente capacidade de se organizar (quando deseja e se o assunto é do seu mundo afetivo).

Em um mundo sem perspectivas, esse caráter lúdico da crítica popular, latente nas brincadeiras juninas, pode ser um ensaio não apenas de uma dança de quadrilha ou de uma encenação caipira. Elas ensaiam uma sociedade nova na qual todos são protagonistas. Assim, na alegria e de forma despretensiosa, grupos e comunidades populares sinalizam uma realidade nova que se aproxima ao que os evangelhos chamam de reinado de Deus. Do seu modo e em sua linguagem lúdica, parecem traduzir uma palavra que os evangelhos atribuem a São João Batista: "Mudem de vida porque a realização do projeto de Deus no mundo está próximo!” (Mt 3, 2).

Marcelo Barros
Monge beneditino e escritor
Há vinte anos, em junho de 1993, celebrou-se no Rio de Janeiro a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, também conhecida como Cúpula da Terra. Os resultados foram a aprovação do Programa 21, um plano de ação mundial para promover o desenvolvimento sustentável, e a Declaração do Rio sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento – basicamente, um conjunto de princípios que definem direitos e obrigações dos Estados em relação à natureza e ao desenvolvimento.

A Cúpula teve dois grandes protagonistas. De um lado, George Bush pai, presidente dos Estados Unidos, que anunciou no Rio que “o estilo de vida norte-americano não está aberto a negociações”. De outro, o comandante da revolução cubana, Fidel Castro, cuja posição pode ser resumida na seguinte frase, extraída de seu discurso ao plenário da reunião: “Se se quer salvar a humanidade desta autodestruição, é preciso distribuir melhor as riquezas e tecnologias disponíveis no planeta. Menos luxo e menos desperdício em poucos países, para que haja menos pobreza e menos fome em grande parte do planeta. Não mais transferências, ao terceiro mundo, de estilos de vida e hábitos de consumo que arruínam o meio ambiente. Façamos mais racional a vida humana. Construamos uma ordem econômica internacional justa. Utilizemos toda a ciência necessária para um desenvolvimento sustentado, sem contaminação. Paguemos a dívida ecológica, e não a dívida externa. Que desapareça a fome – não o homem”.

Vinte anos depois daquela Cúpula da Terra, em meio a uma crise estrutural do modelo civilizatório ocidental, as palavras de Fidel ainda ressoam entre os corredores do Riocentro, o luxuoso centro de convenções da Barra da Tijuca, onde se celebrará a Cúpula das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, Rio+20.


Katu Arkonada, que está no Rio de Janeiro, integra o grupo de negociadores do Estado Plurinacional da Bolívia na Rio+20.

domingo, 20 de maio de 2012

Manipulação da opinião pública


Antônio Mesquita Galvão
Doutor em Teologia Moral

O filósofo americano Noam Chomsky fala, em uma de suas obras ("Visões Alternativas”) nas estratégias que o sistema (as elites sociais, políticas, econômicas e até religiosas) utiliza para manipular o pensamento das pessoas e assim conformar a opinião geral às suas ideologias.

1. A estratégia da distração - O elemento primordial do controle social é a estratégia da distração, que consiste em desviar a atenção do público dos problemas importantes e das mudanças decididas pelas elites sociais, políticas e econômicas. É o que Chomsky chama de "armas silenciosas para guerras tranquilas”.

2. Criar os problemas e depois oferecer as soluções -Este método também é chamado de problema→reação→solução Cria-se um problema, uma "situação” prevista para causar certa reação no público, a fim de que este se torne "suplicante” (clamor) das medidas que se deseja implantar.

3. A estratégia da gradualidade - Para fazer que se aceite uma medida inadmissível, basta aplicá-la gradualmente, a conta-gotas, num prazo alargado.

4. A estratégia do adiamento - Outra maneira de provocar a aceitação de uma decisão impopular é a de apresentá-la com "dolorosa e necessária” (o "cortar na carne”), obtendo a aceitação pública, no momento, para uma aplicação futura.

5. Dirigir-se ao público com se ele fosse uma criança -A maioria da publicidade dirigida ao grande público utiliza discursos, argumentos e imagens particularmente infantis, muitas vezes a roçar a debilidade (com desenhos, animaizinhos, criancinhas), como se o expectador fosse uma criança ou um deficiente mental. Um conhecido "âncora” da Rede Globo disse em off, que o brasileiro tem mentalidade de Homer Simpson.

6. Utilizar a emoção acima da reflexão - Fazer uso do aspecto emocional é uma técnica clássica para injetar ideias, e mensagens. Isto acontece em comerciais de tevê, programas políticos, campanhas sociais, aulas e encontros de igreja, etc.

7. Manter o povo na ignorância, alimentando ideais medíocres -A qualidade da educação dada às classes socialmente inferiores deve ser a mais pobre e medíocre possível, de forma que a distância entre estas e as classes altas permaneça inalterada no tempo, e seja impossível alcançar uma autêntica igualdade de oportunidade para todos.

8. Estimular uma complacência com a mediocridade -A vulgaridade, incultura, e o ser mal-falado ou admirar personagens sem talento, estão na moda.

9. Reforçar o sentimento de culpa pessoal - Fazer crer ao indivíduo que ele é o maior (ou único) culpado por sua própria desgraça, por insuficiência de inteligência, de capacidade de preparo ou de esforço.

10. Afirmar que conhecem as pessoas melhor do que elas próprias - Os sistemas de informática "espionam” a vida das pessoas, usuários desses programas. Isto significa que, na maioria dos casos, o sistema exerce controle e poder sobre os indivíduos, superior ao que eles pensam que realmente tem.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Por que não quebrar os paradigmas?

Os cinco macacos
Um grupo de cientistas colocou cinco macacos numa jaula. No meio, uma escada e sobre ela um cacho de bananas.

Quando um macaco subia na escada para pegar as bananas, os cientistas jogavam um jato de água fria nos que estavam no chão. Depois de certo tempo, quando um macaco ia subir a escada, os outros o pegavam e enchiam de pancada. Com mais algum tempo, nenhum macaco subia mais a escada, apesar da tentação das bananas.

Então, os cientistas substituíram um dos macacos por um novo. A primeira coisa que ele fez foi subir a escada, dela sendo retirado pelos outros, que o surraram. Depois de algumas surras, o novo integrante do grupo não subia mais a escada. Um segundo foi substituído e o mesmo ocorreu, tendo o primeiro substituto participado com entusiasmo da surra ao novato. Um terceiro foi trocado e o mesmo ocorreu. Um quarto, e, afinal, o último dos veteranos foi substituído.

Os cientistas então ficaram com um grupo de cinco macacos que, mesmo nunca tendo tomado um banho frio, continuavam batendo naquele que tentasse pegar as bananas.

Se possível fosse perguntar a algum deles porque eles batiam em quem tentasse subir a escada, com certeza, a resposta seria:

"Não sei, mas as coisas sempre foram assim por aqui".

Você não deve perder a oportunidade de passar essa história para as pessoas, para que, vez por outra, se perguntem porque estão batendo.

quarta-feira, 28 de março de 2012

O Cristianismo: uma religião? Ou a saída da religião

Maria Clara Lucchetti Bingemer*
Sempre nos pareceu muito evidente afirmar que o Cristianismo é uma religião. Pois na verdade isso não é tão claro assim. Cada vez mais a teologia se inclina por afirmar que o Cristianismo não pode ser definido como uma religião. O que significa isso?  Na verdade, muitas coisas e que, se pensarmos bem, não irão nos parecer tão estranhas.  Comecemos do começo.  Ou melhor: comecemos por Jesus de Nazaré.  Será que podemos afirmar que Jesus queria fundar uma religião?

Achamos que não. Jesus já tinha uma religião e não pensava em escolher outra. Era um judeu piedoso e fiel.  O que o incomodava, justamente, era aquilo que os especialistas da religião haviam feito com a fé de Israel. Ao ler os quatro evangelhos, vemos claramente que a disputa de Jesus com os mandatários de sua religião se centra na distorção ou deturpação da imagem de Deus que os que se acreditavam donos da religião, do templo e da lei haviam feito.  Haviam posto sobre os ombros do povo um peso tão absolutamente insuportável que era impossível de carregar.  Um sem número de rubricas, ritos, prescrições.

Uma severidade implacável para com o cumprimento de todas essas mínimas normas e uma crueldade com as pessoas mais simples e humildes que não conseguiam cumpri-las por não terem condições de fazê-las.  Jesus percebia que segmentos inteiros do povo eram declarados sem Deus: doentes, leprosos, pecadores.  E que várias categorias de pessoas eram tratadas como cidadãos de segunda categoria dentro deste mesmo povo: mulheres, crianças.

A esses então Jesus anuncia uma boa notícia, um Evangelho: o projeto do Pai, o Reino é para eles também.  Mais ainda: eles serão os primeiros a entrar, pois são humildes, se reconhecem pecadores, se sabem necessitados de misericórdia e perdão e não se acham donos inexpugnáveis e sobranceiros do dom de Deus que ninguém pode se arvorar em possuir.

Ao fazer isso, Jesus não queria atacar nem agredir a religião de seus pais, na qual havia nascido e a qual amava.  Desejava apenas que a pureza do ideal da Aliança que sustentou a história e a caminhada de Israel pudesse continuar e crescer em toda a sua pureza.  Porém por isso mesmo foi considerado blasfemo.  Acusaram-no de agir contra a religião, de colocar em perigo a religião vigente que emanava do Templo de Jerusalém.

E por isso fazem um complô para matá-lo.  E efetivamente o matam.É algo que deve fazer-nos pensar que quem matou Jesus não foi um grupo de bandidos e fora da Lei.  Pelo contrário, foram homens considerados de bem, guardiães da ordem e da religião.  Por crê-lo inimigo da religião de Israel, acreditaram dever eliminá-lo.  Temiam que ele quisesse acabar com a religião e trazer uma nova religião.Na verdade a proposta de Jesus não é a de uma religião, e sim de um caminho: o caminho do amor, da justiça, da fraternidade.

O caminho da experiência de ser filhos de um Deus que é Pai bondoso, amoroso, misericordioso.  E por isso, ser irmãos uns dos outros.  Assim fazendo, Jesus desloca o eixo da presença de Deus do Templo para o ser humano.  Anuncia que quando alguém está ferido á beira do caminho há que deter-se e socorrê-lo, atende-lo, com todo o amor e desvelo possíveis.  E não ir correndo para o templo porque se está atrasado para a celebração.
Quem se detém e pratica o amor para com o próximo ferido e desamparado, encontra a Deus.  Mesmo que seja um idólatra, como o samaritano do capítulo 10 do evangelho de Lucas.  Mesmo que esse Deus se revele fora do Templo e das rubricas da Lei.Com a morte de Jesus e a experiência de sua ressurreição, seus seguidores começaram a anunciar seu nome e um movimento de fé começou a criar-se em torno dele.  E essa fé necessitava de uma religião para expressar-se.  Por isso tomou os ritos do judaísmo e acrescentou outros.

O Cristianismo nascente tentou ficar dentro da sinagoga.  Não foi possível e o próprio Paulo, - judeu filho de judeus, circuncidado ao oitavo dia, da tribo de Benjamin, formado aos pés de Gamaliel - com muita dor na alma, foi quem chefiou o movimento de ruptura e ida aos gentios.  Espalhou-se pelo mundo a nova proposta, cresceu e configurou todo o ocidente.  Aquilo que começara humildemente em Nazaré da Galileia, com o carpinteiro fazedor de milagres que chamava Deus de Abba – Paizinho tornava-se, sobretudo depois do século IV, a religião mais poderosa e hegemônica do mundo.

Foi preciso que houvesse a virada da modernidade, o declínio do mundo teocêntrico medieval, que o Cristianismo perdesse o poder que tinha de instancia normativa dentro da sociedade para que aparecesse a verdade inicial em toda a sua pureza.  O Cristianismo não é uma religião.  Ou, se for, é uma religião da saída da religião.  É um caminho de fé que opera pelo amor, um estilo de viver, nas pegadas de Jesus de Nazaré, que passou pelo mundo fazendo o bem.O que isso quer dizer para nós hoje?  Que tudo que é religioso é mau?  De forma alguma.

Os gestos, os rituais, as normas, as formulas religiosas são boas desde que enunciem a verdade de uma fé, de um sentido de vida que se expressa na abertura a Deus e ao outro.  E por isso são relativas.  Pode ser que algumas expressões religiosas que foram muito adequadas a determinada época histórica sejam extremamente inadequadas a outra ou outras.  O único absoluto é Deus. O resto... é resto mesmo.  Isso é que, hoje como ontem, o Cristianismo é chamado a proclamar diante do mundo.

*Teóloga, professora e decana do Centro de Teologia e Ciências Humanas da PUC-Rio
Fonte: Amai-vos - Inteligência e Tecnologia a Serviço do Amor

quarta-feira, 14 de março de 2012

O impostor impostômetro

É evidente que o sistema tributário brasileiro precisa ser repensado e reestruturado com uma nova legislação

Em abril de 2005, a Associação Comercial de São Paulo (ACSP) criou um painel eletrônico que anualmente calcula os impostos arrecadados pela União, estados e municípios. Apelidado de impostômetro, o painel está instalado na sede da ACSP e tornou-se umas das principais peças publicitárias da campanha das elites pela diminuição dos impostos cobrados no país. Para isso, não lhe faltam espaços na mídia. Em setembro do ano passado, quando o painel registrou a cifra de R$ 1 trilhão de impostos pagos pelos brasileiros, meia dúzia de palhaços – assim estavam caracterizados  – assoprando apitos em frente ao painel, apareceram como sendo uma manifestação popular nas principais mídias da imprensa burguesa.

Alinhado com esse interesse da classe dominante, o PTB paulista está usando seus espaços na mídia para também atacar a cobrança de impostos. Esforça-se para fazer a população acreditar que levará para casa mais comida e remédios se os impostos diminuírem. Se a burguesia, com seus partidos políticos de aluguel, estivesse realmente preocupada em resolver os problemas que afetam o povo, não seríamos um país campeão em desigualdade social e não ocuparíamos a 72ª posição no ranking da Organização Mundial de Saúde (OMS) de investimentos em saúde.

É evidente que o sistema tributário brasileiro precisa ser repensado e reestruturado com uma nova legislação. Não para atender a elite, já abastada de riquezas e privilégios.

Para o professor João Sicsu, do Instituto de Economia do Rio de Janeiro, o sistema tributário brasileiro é injusto e regressivo, possui uma estrutura concentradora, uma vez que sacrifica mais os de baixo e alivia os de cima. Por isso, para Sicsu, há a necessidade de mudanças, a fim de que o país tenha um sistema tributário socialmente justo, que adquira um caráter distributivo da riqueza, que possibilite o Estado adotar gastos públicos, que promova a igualdade de acesso e oportunidades à população e que impeça as grandes riquezas de se evadirem do país, legal ou ilegalmente, com o objetivo de se eximir de seu dever contributivo.

O Instituto Nacional de Estudos Socioeconômicos (Inesc) estima que cerca de US$ 60 bilhões saíram do Brasil diretamente para paraísos fiscais em 2009. Certamente essa fortuna não alimentou os dados do impostômetro da ACSP.

O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), num estudo recentemente apresentado, atesta que 47,3% da carga tributária advém de impostos sobre consumo e 26% da folha salarial. Já a renda contribui apenas com 19,8% e a propriedade e as transações financeiras com míseros 4,9%. As famílias brasileiras mais pobres gastam 32% da sua renda em impostos. Já a carga tributária das famílias mais ricas é de 21%.

Ainda de acordo com o professor Sicsu, o atual sistema tributário assegura isenção de pagamentos de impostos sobre jatinhos, helicópteros e lanchas; o imposto sobre heranças, cobra alíquotas em torno de 4%; nos países desenvolvidos, pode chegar a 40%. Em 2010, do total da receita federal de R$ 826.065 milhões, o Imposto Territorial Rural (ITR) contribuiu com R$ 536 milhões, ou seja, 0,07% do total. É sobre essa estrutura tributária que os idealizadores do impostômetro exigem mudanças?

Não restam duvidas, no entanto, que a elite, mais uma vez, conseguiu aprisionar o Congresso Nacional aos seus interesses, na hora de definir o aumento de recursos financeiros para o setor de saúde. Há o consenso de que setor precisa de mais verba. Mas, com receio da mídia, os parlamentares não aprovaram a Contribuição Social da Saúde (CSS), proposta pela presidenta Dilma Rousseff. Pela proposta, seria cobrado apenas 0,1% da movimentação financeira, medida que garantiria quase R$ 20 bilhões para a saúde. E o tributo seria cobrado de quem recebe acima do teto previdenciário, hoje estabelecido em R$ 3.589. Ou seja, cerca de 95% da população estaria isenta do tributo. Mesmo assim o Congresso se rendeu à impostura do impostômetro.

A coragem e clareza política que faltaram aos parlamentares, manifestaram-se no diretor geral do Hospital do Coração (Hcor) e ex-ministro da Saúde, Adib Jatene, quando, em entrevista à Carta Maior, foi enfático ao afirmar que “quem controla a mídia faz a população acreditar que a carga tributária é insuportável. Mas, se você tirar a Previdência Social do orçamento, e a Previdência é um dinheiro dos aposentados que o governo apenas administra, vai ver que a nossa carga tributária está abaixo de 30%. É pouco para um país como o Brasil.”

As necessidades do povo brasileiro exigem dos governantes a ousadia de aprofundar as ações que promovam o combate à pobreza e assegurem a transferência de renda e universalização dos direitos à saudade, educação e moradia. Vencer esses desafios certamente exigirá enfrentar os interesses dessa elite idealizadora de impostômetros, depositária de riquezas nos paraísos fiscais e sem nenhuma identificação com os interesses do país e do povo brasileiro.

Fonte: Brasil de Fato

Conforme dados do IBGE (acima), enquanto os mais pobres pagam quase metade do que ganham em impostos, quem ganha mais de 20 mil reais paga apenas 26% do que ganham para o governo. Sem contar que quanto maior a renda, menor é a carga tributária, e que há muito endinheirado que sonega, faz "planejamento tributário" e ainda consegue algum favor fiscal (isenção, anistia, etc.). Além de ganharem pouco, os mais pobres pagam mais impostos...

A solução para os problemas nacionais não está na diminuição da carga tributária (que, apesar do que os grandes empresários falam, não é alta). Menor carga tributária significa menos serviços prestados e cada vez mais com pior qualidade pelo governo (menos vacinas de graça, menos escolas e universidades públicas, precarização ainda maior da saúde pública, etc.).

A finalidade dos impostos é satisfazer as necessidades coletivas que não podem ficar por conta do mercado. Os tributos servem para financiar as atividades do Estado, que precisa de recursos para cumprir com suas obrigações de prestação de serviços essenciais à população

Sendo assim, o problema não é a existência de tributos, mas a injusta distribuição de renda e da carga tributária.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Campanha - "Que a saúde se difunda sobre a terra"

Na próxima quarta-feira (de Cinzas), inicia-se a Quaresma - tempo litúrgico católico de preparação para a festa da Páscoa da Ressurreição de Jesus Cristo. É nesse tempo que a Igreja Católica promoverá mais uma Campanha da Fraternidade.

A Campanha da Fraternidade 2012 traz para o debate a realidade da saúde no Brasil, para contribuir na qualificação e no fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS), em vista da melhoria da qualidade devida da população, dos serviços e do acesso a eles. Além de dar uma ideia de como o sistema de saúde funciona, a campanha quer trabalhar no sentido de que as pessoas assumam a sua própria saúde.

VER - A realidade vivenciada na área da saúde e compreender a origem e os desafios para a superação dos problemas apresentados.

"Saúde não é só bem-estar físico, mas trabalho, casa, convivência serena com os outros. Um trabalho que me ajuda a sobreviver, e isso o povo não tem. Não tem assistência no SUS. Entra numa fila enorme; uma outra fila para receber o dinheiro, outra para receber o remédio. O que é mais grave é que tem um conjunto que não deixa o povo viver bem: os meios de transporte públicos são precários, as casas são difíceis, vivem nos cortiços, na rua, o que paga aluguel não tem outra condição. E a saúde é uma coisa muito difícil para o povo brasileiro."
Ir. Alberta, Congregação de Dom Orione, São Paulo

"A mercantilização da saúde hoje está muito ligada a um modelo tanto hospitalocêntrico quanto alopático, farmacêutico, à influência da indústria farmacêutica no sistema de saúde. Então tem toda uma discussão também ligada aos planos de saúde, à privatização da saúde, que é muito importante colocar em pauta, porque a gente busca e defende o que o povo realmente quer: uma saúde pública gratuita, mas uma saúde de qualidade."
Marcelo Pelizzoli, professor na Universidade Federal de Pernambuco

JULGAR - Considerando a saúde como direito que deve ser assegurado a todo cidadão, tendo como referência os princípios de equidade e alteridade, os direitos humanos e a nossa Constituição.

“Hoje, no Brasil, saúde pública é sinônimo de SUS. Mas o SUS não apareceu assim magicamente. O SUS é uma construção de vários movimentos que foram chegando a diversos tipos de assistência à saúde, para que pudesse oferecer a toda população um sistema de saúde competente, eficaz, para todos.”
Jane Maria Reos Wolff, médica comunitária e do trabalho, Porto Alegre, RS


“Para difundir a saúde, vamos suar, vamos ter que ter consciência dos direitos, mas também da dignidade que nos torna autoimplicativos. Na medida em que entramos no consumismo, no desleixo com o ambiente, nós próprios não cuidamos da nossa saúde, da educação, da nossa forma de alimentar, não há sociedade que consiga estabelecer políticas capazes de sustentar isso.”
Marcio Fabri dos Anjos, professor no Centro Universitário São 
Camilo, São Paulo, SP


AGIR - Para transformar as situações desumanizantes em defesa de um sistema de saúde eficiente, de um modo de viver decente para todos, como compromisso de solidariedade, para promover a saúde e a vida.


"O SUS, tido como talvez o melhor sistema de saúde do mundo, não está disponível para todas as pessoas e, no nosso entendimento, é por questão do financiamento que ele precisa ter para fazer aquilo para o qual ele foi criado. Estamos num país que tem tido muita dificuldade na questão de tornar público aquilo que deve ser público, porquanto muitos interesses particulares têm sido levados para o Congresso Nacional, que é onde se decidem as coisas."
Ronald Selle Wolff, médico de família, Porto Alegre, RS

"Investir em saúde não é investir em hospitais, não é investir em equipamentos, mas é investir fundamentalmente na educação da população para a saúde. A atenção primária, como se chama, investir em condições básicas sanitárias, em equipes integrativas, em visões, em políticas integrativas de saúde. Ou seja, criando autonomia com o paciente, com o sujeito. Autonomia para que as pessoas saibam, que tenham uma cultura, educação, de como não ficar doente, de como saber lidar com a sua doença em casa, para não precisar de todo um sistema posterior que vai ter um custo enorme."
Marcelo Pelizzoli, professor na Universidade Federal de Pernambuco