Frei Betto: "Paulo, o apóstolo"

Paulo, o Apóstolo
Frei Betto, escritor e assessor de movimentos sociais
Fonte: Adital

No dia 25 de janeiro, celebra-se a festa de Paulo de Tarso, que dá nome à capital paulista. Sobre ele temos informações graças a 13 cartas que escreveu e ao relato do evangelista Lucas, com quem fez viagens missionárias, intitulado Atos dos Apóstolos – documentos que integram o Novo Testamento.

Paulo ou Saulo nasceu provavelmente no ano 1 de nossa era e faleceu em 64, aos 63 anos, em Roma. Seus pais haviam emigrado da Palestina para Tarso. Judeus piedosos, evitaram matricular o filho em escolas gregas. Tão logo completou 14 anos, Paulo foi remetido a Jerusalém, onde morava sua irmã casada. Estudou na mais renomada escola rabínica da época: "aos pés de Gamaliel” (Atos 22, 3).

Seus textos demonstram sólida formação teológica. E era excelente escritor. Seu "Hino ao Amor” (1 Coríntios 13, 1-13) é dos mais belos poemas da literatura universal: Ainda que eu falasse / a língua dos homens e dos anjos, / e não tivesse amor,/ seria como o bronze que soa / ou o címbalo que tine…

Paulo encontrava-se entre os apedrejadores do jovem levita Estêvão, condenado por "blasfêmia” por haver se tornado cristão. As vestes dos executores foram depositadas "aos pés de um jovem, chamado Saulo” (Atos 7, 58).

Tornou-se inimigo dos cristãos: "Persegui de morte esta doutrina, acorrentando e encarcerando homens e mulheres” (Atos 22, 4). Tinha ele 28 anos: "Fui com o objetivo de ali prendê-los (os cristãos) e trazê-los acorrentados a Jerusalém, onde seriam castigados. Ora, estando eu a caminho e aproximando-me de Damasco, pelo meio-dia, de repente me cercou uma intensa luz do céu. Caí por terra e ouvi uma voz que me dizia: "Saulo, Saulo, por que me persegues?”. Respondi: "Quem és, senhor?”. E ele me disse: "Sou Jesus Nazareno, a quem persegues” (Atos 22, 5-10).

Em Damasco, ao pregar nas sinagogas, despertou-lhe a vocação apostólica. Pouco depois retirou-se ao deserto, talvez para se preparar, espiritual e teologicamente, em alguma comunidade judaica-cristã. Ali permaneceu por 13 anos! Nada se sabe sobre esse período da vida dele.

Aos 41 anos, Paulo dirigiu-se a Jerusalém para "visitar” o chefe da nascente Igreja, Pedro (Gálatas 1, 18).

Paulo dedicou mais de 14 anos a viagens missionárias. Percorreu cerca de 15 mil km e enfrentou todo tipo de dificuldades: foi açoitado, apedrejado, preso, assaltado; naufragou, sentiu-se traído, passou fome, frio e noites sem dormir (2 Coríntios 11, 24-27), exposto "ao perigo a todo o momento” (1 Coríntios 15, 30).

Nem sempre é fácil adequar a mudança do modo de pensar com a do agir. Foi o que ocorreu a judeu-cristãos de Jerusalém e a Pedro. Acreditavam que um pagão convertido ao cristianismo deveria, primeiro, aceitar certos rituais judaicos, como a circuncisão e as práticas de pureza. Paulo discordava. Para ele, um pagão podia abraçar a fé em Cristo sem a menor observância à lei mosaica. Frente ao impasse, no ano 51 ele participou, em Jerusalém, do primeiro Concílio da história da Igreja.

Logo depois, em Antioquia, ocorre um incidente entre ele e Pedro. Eis o que Paulo escreveu na Carta aos Gálatas (2, 11-14): "Quando Pedro foi a Antioquia, eu o enfrentei em público, porque ele estava claramente errado. De fato, antes de chegarem algumas pessoas da parte de Tiago (bispo de Jerusalém), ele comia com os pagãos; mas, depois que chegaram, Pedro começou a evitar os pagãos e já não se misturava com eles, pois tinha medo dos circuncidados. Os outros judeus também começaram a fingir e até Barnabé se deixou levar pela hipocrisia. Quando vi que eles não estavam agindo direito, conforme a verdade do Evangelho, eu disse a Pedro, na frente de todos: "Você é judeu, mas está vivendo como os pagãos e não como os judeus. Como pode, então, obrigar os pagãos a viverem como judeus?”.

Paulo não era contra os judeu-cristãos observarem a lei mosaica. Encarava isso com tolerância. A questão se complicou ao perceber Pedro mudar seu modo de agir e passar a admitir que a salvação não viria apenas como dom gratuito de Cristo, mas também pelo cumprimento da lei de Moisés. Ao retomar antigos costumes judaicos, Pedro fez os pagão-cristãos se sentirem inferiores aos judeu-cristãos, como se fossem fiéis de segunda classe.

Paulo fazia questão de não ser um peso às comunidades que o acolhiam. Sustentava-se com o seu ofício de fabricante de tendas e de objetos de couro (Atos 18, 3).

Ao chegar a Atenas, sugeriram-lhe ir ao Areópago, a colina de Marte, onde se reuniam os interessados em filosofia. Ali exercitou toda a sua pedagogia evangelizadora: valorizou seus ouvintes como "extremamente religiosos” (Atos 17, 22) e, ao deparar-se com um altar dedicado "ao Deus desconhecido”, soube tirar proveito: "Aquele que venerais sem conhecer é este que vos anuncio” (Atos 17, 23). E parafraseando Arato, poeta conhecido pelos gregos, concluiu que Deus "não está longe de cada um de nós; é nele que vivemos, nos movemos e existimos” (Atos 17, 27-28).

Para tempos de fundamentalismos religiosos, Paulo deixou importante legado por seu testemunho de quem passou de perseguidor a perseguido; de membro da elite a pregador itinerante; de fariseu intolerante a cristão dotado de espírito ecumênico; de legalista a misericordioso.

Paulo soube ser grego com os gregos e judeu com os judeus; respeitou a hierarquia da Igreja sem deixar de criticar inclusive o papa, Pedro; demonstrou que o contrário do medo não é a coragem, é a fé.

Místico, Paulo ousou exclamar: "Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim” (Gálatas 2, 20).