quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Consciência Negra - ZUMBI VIVE!


Zumbi vive!
Mário Maestri
Em 20 de novembro de 1695, Nzumbi dos Palmares caía lutando em mata perdida do sul da capitania de Pernambuco. Seu esconderijo fora revelado por lugar-tenente preso e barbaramente torturado. Mutilaram seu corpo. Enfiaram seu sexo na boca. Expuseram a cabeça do palmarino na ponta de uma lança em Recife. Os trabalhadores escravizados e todos os oprimidos deviam saber a sorte dos que se levantavam contra os senhores das riquezas e do poder.

Em 1654, com a expulsão dos holandeses do Nordeste, os lusitanos lançaram expedições para repovoar os engenhos com os cativos fugidos ou nascidos nos quilombos da capitania. Para defenderem-se, as aldeias quilombolas confederaram-se sob a chefia política do Ngola e militar do Nzumbi. A dificuldade dos portugueses de pronunciar o encontro consonantal abastardou os étimos angolanos nzumbi em zumbi, nganga nzumba, em ganga zumba. A confederação teria uns seis mil habitantes, população significativa para a época.

Em novembro de 1578, em Recife, Nganga Nzumba rompeu a unidade quilombola e aceitou a anistia oferecida apenas aos nascidos nos quilombos, em troca do abandono dos Palmares e da vil entrega dos cativos ali refugiados ou que se refugiassem nas suas novas aldeias.

Acreditando nos escravizadores, Ganga Zumba deu as costas aos irmãos de opressão e aceitou as miseráveis facilidades para alguns poucos. Abandonou as alturas dos Palmares pelos baixios de Cucuá, a 32 quilômetros de Serinhaém. Foi seduzido por lugar ao sol no mundo dos opressores, pelas migalhas das mesas dos algozes.

Então, Nzumbi assumiu o comando político-militar da confederação.

Para ele, não havia cotas para a liberdade ou privilegiados no seio da opressão! Exigia e lutava altaneiro pelo direito para todos!

Não temos certeza sobre o nome próprio do último nzumbi que chefiou a confederação após a defecção de Nganga Nzumba. Documentos e a tradição oral registram-no como Nzumbi Sweca.

Nos derradeiros ataques aos Palmares, as armas de fogo e a capacidade dos escravistas de deslocar e abastecer rapidamente os soldados registravam o maior nível de desenvolvimento das forças produtivas materiais do escravismo, apoiadas na superexploração dos trabalhadores feitorizados. As tropas luso-brasileiras eram a ponta de lança nas matas palmarinas da divisão mundial do trabalho de então.

Não havia possibilidade de coexistência pacífica entre escravidão e liberdade. Palmares era república de produtores livres, nascida no seio de despótica sociedade escravista, que surge hoje nas obras da historiografia apologética como um quase paraíso perdido, onde a paz, a transigência e a negociação habitavam as senzalas. Palmares era exemplo e atração permanentes aos oprimidos que corroíam o câncer da escravidão.

Como já lembraram, nos anos 1950, o historiador marxista-revolucionário francês Benjamin Pérret e o piauiense comunista Clóvis Moura, a confederação dos Palmares venceria apenas se espraiasse a rebelião aos escravizados dos engenhos, roças e aglomeração do Nordeste, o que era então materialmente impossível.

Palmares não foi, porém, luta utópica e inconsequente. Por longas décadas, pela força das armas e a velocidade dos pés, assegurou para milhares de homens e mulheres a materialização do sonho de viver em liberdade de seu próprio trabalho. Indígenas, homens livres pobres, refugiados políticos eram aceitos nos Palmares. Eram braços para o trabalho e para a resistência.
A proposta da retomada da escravidão colonial em Palmares, com Zumbi com um “séquito de escravos para uso próprio”, é lixo historiográfico sem qualquer base documental, impugnado pela própria necessidade de consenso dos palmarinos contra os escravizadores. Trata-se de esforço ideológico de sicofantas historiográficos para naturalizar a opressão do homem pelo homem, propondo-a como própria a todas e quaisquer situações históricas.

Palmares garantiu que milhares de homens e mulheres nascessem, vivessem e morressem livres. Ao contrário, em poucos anos, os seguidores de Ganga Zumba foram reprimidos, reescravizados ou retornaram fugidos aos Palmares, encerrando-se rápida e tristemente a traição que dividiu e fragilizou a resistência quilombola.

A paliçada do quilombo do Macaco foi a derradeira tentativa de resistência estática palmarina, quando a resistência esmorecia. Ela foi devassada em fevereiro de 1694, por poderoso exército, formado por brancos, mamelucos, nativos e negros, entre eles, o célebre Terço dos Enriques, formado por soldados e oficiais africanos e afro-descendentes. Não havia e não há consenso racial e étnico entre oprimidos e opressores.

O último reduto palmarino, defendido por fossos, trincheiras e paliçada, encontrava-se nos cimos de uma altaneira serra.

A Serra da Barriga e regiões próximas, na Zona da Mata alagoana, com densa vegetação, são paragens de beleza única. Quem se aproxima da serra, chegado do litoral, maravilha-se com o espetáculo natural.

O maciço montanhoso rompe abruptamente, diante dos olhos, no horizonte, como fortaleza natural expugnável, dominando as terras baixas, cobertas pelo mar verde dos canaviais flutuando ao lufar do vento.

Se apurarmos o ouvido, escutaremos os atabaques chamando às armas, anunciando a chegada dos negreiros malditos. Sentiremos a reverberação dos tam-tans lançados do fundo da história, lembrando às multidões que labutam, hoje, longuíssimas horas ao dia, não raro até a morte por exaustão, por alguns punhados de reais, nos verdes canaviais dessas terras que já foram livres, que a luta continua, apesar da já longínqua morte do general negro de homens livres.
Mario Maestri é professor do programa de pós-graduação em História da UPF.

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Grito dos Excluídos 2013 convoca jovens ao protagonismo social

O tema do Grito dos Excluídos de 2013 foi definido, e esse ano a Juventude está no centro dessa manifestação que acontece em 7 de setembro. “Juventude que ousa lutar, constrói o projeto popular” é o lema do 19º Grito dos Excluídos definido pela a coordenação do Grito que acolheu sugestões de vários grupos, comunidades, dioceses, movimentos, sindicatos, para a escolha.

O Grito dos Excluídos é uma manifestação popular carregada de simbolismo, é um espaço de animação e profecia, sempre aberto e plural de pessoas, grupos, entidades, igrejas e movimentos sociais comprometidos com as causas dos excluídos. É realizado em um conjunto de manifestações realizadas no Dia da Pátria, 7 de setembro, tentando chamar à atenção da sociedade para as condições de crescente exclusão social na sociedade brasileira.

O Grito dos Excluídos, como indica a própria expressão, constitui-se numa mobilização com três sentidos:

  • Denunciar o modelo político e econômico que, ao mesmo tempo, concentra riqueza e renda e condena milhões de pessoas à exclusão social;
  • Tornar público, nas ruas e praças, o rosto desfigurado dos grupos excluídos, vítimas do desemprego, da miséria e da fome;
  • Propor caminhos alternativos ao modelo econômico neoliberal, de forma a desenvolver uma política de inclusão social, com a participação ampla de todos os cidadãos.
Hoje, caminha lado a lado com os setores da juventude que amadureceram, ganharam conhecimento dos desmandos cometidos pelos governantes e os demais poderes podres deste país, descobriram que o país não é dos políticos e sim do povo, ousaram e ousam assumir seu protagonismo, exigindo mudanças radicais das estruturas políticas, econômicas e sociais deste país.

Nem a violência institucionalizada, e aprofundada a partir da ditadura militar dos anos 1964 a 85, conseguiu criar barreiras à avalanche juvenil que, determinada a dar um “basta!” aos crimes do colarinho branco, ocupou as ruas das grandes cidades do Brasil.

Apesar dos esforços em contrário, a mídia corrompida se viu forçada a reconhecer e divulgar o vigor de uma juventude determinada a dar o seu grito. E o grito, sem os tradicionais microfones e alto-falantes, ecoou pelo Brasil afora e repercutiu no mundo inteiro, sacudiu as estruturas do poder.

O 19º Grito dos Excluídos terá como tema este ano a exclusão dos jovens. Com o lema Juventude que Ousa Lutar Constrói Projeto Popular, os movimentos sociais e as pastorais promoverão vários atos em todo o País no dia 7 de setembro, quando se comemora o Dia da Independência, para chamar a atenção para os problemas que enfrentam os jovens brasileiros, principalmente os que vivem nas periferias. Ocupar os espaços é o primeiro passo para mudar radicalmente a realidade e isto as novas gerações estão almejando.

Representantes de diversos movimentos sociais participaram nesta sexta-feira (30) da coletiva de imprensa da 19ª edição do Grito dos Excluídos, na sede da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) Sul I, em São Paulo (SP), onde falaram sobre as temáticas que serão destaques nas mobilizações deste ano.

Além do lema central "Juventude que ousa lutar constrói o projeto popular”, as manifestações do Grito dos Excluídos, que ocorrerão principalmente no dia 7 de setembro (Dia da Independência do Brasil), também pedirão a democratização dos meios de comunicação, o fim do extermínio da juventude nas ruas, a construção de um projeto popular do Brasil, melhorias nos serviços de saúde e educação, entre outras demandas.

"O lema da juventude veio bem a calhar neste ano pela discussão da Jornada Mundial da Juventude, pela exclusão social de jovens e das manifestações populares que aconteceram em junho e foram protagonizadas principalmente pela juventude”, disse a assessora de imprensa do Grito, Alexania Rossato.

De acordo com ela, participaram da coletiva representantes da 26ª Romaria dos Trabalhadores e Trabalhadoras, ato que acontece na cidade de Aparecida (SP) em paralelo aos protestos do Grito dos Excluídos; do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), que realizará seu encontro nacional na próxima semana e engloba pessoas que são excluídas das políticas do Estado ao serem impactadas por construções de barragens; da Pastoral Carcerária, que levantou a questão da violência contra os jovens e relembrou os massacres ocorridos em presídios e cidades brasileiras; do Movimento Nacional dos Moradores de Rua e outros.

Caracterizado por ser uma ação coletiva planejada por organizações, movimentos e pastorais sociais há 19 anos, o Grito dos Excluídos "não é um evento só do [dia] 7 de setembro, mas sim um processo construído durante o ano todo”, explicou Alexania.

Segundo ela, as manifestações organizadas do Grito acontecerão em quase todas as capitais brasileiras e a previsão é de serem realizadas mais de mil ações em várias cidades do país, para levar às ruas as demandas de diversos setores excluídos pelo governo.

ECO DAS MANIFESTAÇÕES DE JUNHO

Suas palavras de ordem, suas exigências ressoam e se aliam às inúmeras reivindicações que afloraram durante os vários dias das manifestações das novas gerações: emprego/trabalho para os 3,7 milhões de jovens desempregados; salários que respondam às necessidades vitais das famílias dos trabalhadores; moradia para os milhões que dela carecem; terra para os que pretendem plantar e colher e repassar internamente para combater a fome que invade milhões de lares brasileiros; serviço público de saúde que previna e cure doenças, que invista na pesquisa científica; estrutura de educação pública e requalificação constante de professores, assim como remuneração adequada à dedicação integral na sua nobre tarefa de educar e preparar nossa infância e juventude para revolucionar este país desigual.

Outra importante exigência do nosso povo, e que ressurge com força neste ano de 2013, é a ampliação dos direitos sociais, e não sua criminosa redução, como vêm exigindo os detentores do capital nacional e internacional.

Outro destaque é para a urgente mudança na concepção e estrutura das polícias brasileiras, que foram militarizadas pela ditadura militar e desvirtuadas de sua função de garantir os direitos do povo, direitos de todos, para se colocar a serviço dos interesses do capital espoliador, gerador de miséria e de escravidão.


O lema do Grito dos Excluídos “Juventude que ousa lutar constrói o poder popular” nos remete à importante tarefa de, pelas experiências e práticas de ocupação dos espaços, ir amadurecendo as ideias básicas para a elaboração de um projeto popular. Projeto que, de fato, venha – com o tempo devido – revolucionar o país, construir uma nova forma de governo, sob controle popular, que substitua o Estado burguês apodrecido e excludente, principal gerador do estado de violência reinante, que banaliza e destroi a vida. Que, nesse processo crescente de experiências, gere as bases sólidas para a construção de outra sociedade, onde a justiça, a solidariedade entre todos e a distribuição de renda prevaleçam definitivamente sobre os criminosos interesses do sistema capitalista.

"O Gritos dos Excluídos é um grande momento para a população brasileira sair às ruas e protestar, fazer suas demandas. Não só a juventude, mas pessoas de qualquer idade. Queremos animar as pessoas a participarem e darem seu grito também”, enfatizou.

"A juventude, ao mesmo tempo em que é sinal de esperança e potencial de criatividade, é a mais excluída da sociedade, seja por conta do trabalho ou da violência", disse Marcelo Naves, membro do Instituto Paulista de Juventude.

Segundo Naves, nos últimos anos o Brasil tem avançado no mundo do trabalho, mas não o suficiente para incluir os jovens. "Dos desempregados (do País), metade são jovens. E, dos que estão empregados, há uma quantidade enorme em condições precárias, principalmente no mercado informal", disse Naves.

Os jovens, de acordo com ele, também estão excluídos da educação, principalmente nas universidades públicas e federais, apesar do governo ter criado programas de inclusão, tal como o Programa Universidade para Todos (Prouni). "E, por último, há ainda a questão da violência e do extermínio. Estamos, de fato, assistindo ao genocídio da juventude negra. A gente registra cerca de 50 mil homicídios por ano e, desse total, em mais de 40% das vítimas são jovens", disse ele.

São Paulo

Na capital paulista, o ato terá início às 8h com uma missa que será celebrada na Catedral da Sé, na região central. Depois, haverá um ato político a partir das 9h, na frente da catedral, com a participação de sindicatos, movimentos sociais, pastorais sociais e partidos políticos.

Em seguida, os manifestantes sairão em caminhada da Praça da Sé até o Parque da Independência, no Ipiranga, local onde D. Pedro I declarou o Brasil independente de Portugal, em 1822. "Lá, em frente ao Monumento (da Independência), faremos o contraponto do grito de independência com o grito dos excluídos."

No mesmo dia, haverá também um ato na cidade de Aparecida, interior paulista. "O grito começa a partir das 6h, com a romaria dos trabalhadores", disse Liciane Andrioli, militante do Movimento dos Ameaçados por Barragens (Moab).

Já no dia 5 de setembro haverá o pré-grito, com início às 8h, na avenida Paulista. "O pré-grito tem um caráter de preparação para o dia 7 de setembro. Em São Paulo, estamos organizando um pré-grito com concentração das ações na avenida Paulista e um dos temas principais é a denúncia do modelo energético implantado em nosso país. Uma das pautas é o direito dos atingidos por barragens", disse Liciane. Segundo ela, há hoje no País mais de 2,2 mil barragens, "que expulsaram mais de um milhão de pessoas". "E, desse total, mais de 70% não tiveram o reconhecimento de seus direitos", disse Liciane.

O Grito dos Excluídos foi criado em 1994, mas o primeiro evento só ocorreu em setembro de 1995. Ele é organizado pela Pastoral Social da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), e tem apoio do Movimento dos Ameaçados por Barragens (Moab) e pelo Movimento Nacional dos Moradores de Rua, entre outros. Mais informações e o cartaz com o tema do Grito deste ano podem ser encontrados em www.gritodosexcluidos.org.

terça-feira, 13 de agosto de 2013

REFORMA DO SISTEMA POLÍTICO

O PODER AO POVO
Que tipo de reforma política, então, defendem os movimentos sociais? De acordo com o integrante do Instituto Nacional de Estudos Socioeconômicos (Inesc) José Antônio Moroni, é necessário ir além das mudanças eleitorais e criar mecanismos para dar à população condições reais de participar das decisões do país. Um instrumento fundamental, nesse sentido, é a possibilidade de os próprios cidadãos convocarem plebiscitos e referendos – competências hoje exclusivas do Congresso Nacional. Além disso, seriam estabelecidos, de antemão, quais temas deveriam ser definidos pela própria população.

“Grandes projetos de impacto socioambiental, alienação de bens públicos, privatizações, concessões, há uma série de questões que é a população que tem que decidir se quer ou não”, pontua o integrante do Inesc.

As propostas dos movimentos sociais para a reforma política estão reunidas em um projeto de lei de iniciativa popular. Além do poder de convocação de plebiscitos e referendos, o PL defende ainda financiamento público de campanhas e a possibilidade de revogação de mandatos. O documento pode ser acessado na página da Plataforma: http://www.reformapolitica.org.br.

A própria América do Sul, para o advogado e membro da organização Consulta Popular Ricardo Gebrim, oferece bons exemplos de participação popular. O Uruguai é um caso: o país vizinho permite que sua população convoque referendos e plebiscitos para decidir temas importantes, como a privatização de recursos naturais.

“Várias tentativas de privatização foram impossibilitadas porque o povo reuniu assinaturas em número suficiente e convocou um plebiscito”, ressalta o membro da Consulta Popular. Os uruguaios adotam, ainda, o financiamento público para campanhas e utilizam o sistema de prévias eleitorais, no qual qualquer cidadão, filiado ou não, está apto para escolher os candidatos dos partidos.
PARA MUDAR: REFORMA POLÍTICA JÁ!

A política deveria ser a forma democrática de como definimos os rumos do nosso País e construímos melhores condições de vida para todo mundo, mas da maneira como a política acontece hoje este objetivo está longe de se realizar. A política é um exercício que deve ser feito por todos e todas. Quando não agimos, os políticos decidem por nossas vidas e a maioria de nós nem sequer sabe o que está sendo definido.

Precisamos mudar esta realidade.

Por isso estamos trabalhando para uma reforma do sistema político que amplie o poder do povo nas decisões. Precisamos ampliar a representação das mulheres, da população negra, do povo indígena, da pessoa em situação de pobreza, da população do campo e da periferia urbana, da juventude e da população homoafetiva, entre outros grupos. Por isso, defendemos o voto em uma lista pré- ordenada e transparente, com alternância de sexo e com critérios de inclusão destes grupos. Hoje a maioria dos parlamentares que representam a sociedade ou são ricos, donos de terras, de bancos, das fábricas e dos meios de comunicação.

Precisamos acabar com a corrupção, com o mau uso do dinheiro público, com sua utilização para objetivos pessoais e com a prática de utilizar a máquina estatal para se perpetuar no poder. Precisamos de uma política com ética, com transparência, com participação de todos os segmentos da sociedade e com instrumentos que possibilitem o povo decidir as principais questões. Contudo, para que isso ocorra, é necessário uma nova regulamentação dos instrumentos de democracia direta (plebiscito, referendo e iniciativa popular) e novas regras para o processo eleitoral. Neste sentido, defendemos a democratização dos partidos, o fim das coligações em eleições proporcionais e o financiamento público exclusivo de campanha. Buscamos, assim, o fim da interferência do dinheiro privado no exercício da atividade pública.

Defendemos também severas punições para o partido que se utilizar de outros recursos para financiar sua campanha. Queremos uma reforma política ampla, democrática e que possibilite a participação da população nas decisões e não apenas nos momentos eleitorais. Defendemos o poder do povo em revogar mandatos e o fim dos privilégios aos políticos, como por exemplo, férias de 60 dias, 14º e 15º salários, além do decoro parlamentar, do foro privilegiado e da imunidade parlamentar para que estes não sejam usados como instrumentos para a impunidade.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Uma nova primavera na Igreja?

Mensagem de São Francisco de Assis aos jovens de hoje

Leonardo Boff (*)


Queridos jovens, meus irmãos e minhas irmãs.

Como vocês, também fui jovem. Era filho de um rico comerciante de tecidos: Pedro Bernardone. Com ele, fui às famosas feiras do sul da França e da Holanda. Aprendi francês e conheci um pouco o mundo, especialmente a música dos jograis e cantigas de amor da Provence.

Minha festiva juventude

Meu pai, muito rico, me proporcionou todas as facilidades. Eu liderava um grupo de jovens boêmios que adoravam passar muitas horas à noite nos becos das ruas, cantando poemas de amor cortês e ouvindo menestréis que narravam histórias de cavalaria. Fazíamos festins e muita algazarra. Assim se passaram vários e alegres anos.

Depois de algum tempo, comecei a sentir um grande vazio dentro de mim. Tudo aquilo era bom, mas não me preenchia. Para superar a crise, tentei ser cavaleiro e fazer façanhas em batalhas contra os mouros. Mas no meio do caminho desisti. Entrei num mosteiro para orar e fazer penitência. Mas logo percebi que esse não era o meu caminho.

O chamado para reconstruir a Igreja em ruínas

Lentamente, porém, começou a crescer dentro de mim um estranho amor pelos pobres e profunda compaixão pelos hansenianos que viviam isolados, fora da cidade. Lembrava-me de Jesus que foi  também pobre e muito que sofreu na cruz.

Certo dia, quando entrei numa igrejinha, de nome São Damião, fiquei  longamente contemplando o rosto chagado do Cristo Crucificado. De repente, me pareceu ouvir uma voz vindo dele: “Francisco, vá e repara a minha igreja que está em ruinas”!

Aquelas palavras calaram fundo no meu coração. Não conseguia esquecê-las. Comecei, com minhas próprias mãos, a reconstruir uma pequenina e velha igreja em ruínas, chamada de Porciúncula. Depois, pensando melhor, me dei conta de que aquela voz se referia à Igreja feita de homens e de mulheres, de prelados, abades, padres, não excluindo o próprio Papa. Ela estava em ruína moral. Grassavam muitas imoralidades, fome de poder, acumulação de riquezas, construções de palácios de cardeais, de papas e suntuosas igrejas. Tudo aquilo que Jesus seguramente não queria de seus seguidores.
A descoberta do evangelho e dos pobres

Achei por bem beber da fonte genuína da reconstrução da Igreja: os evangelhos e o seguimento de Jesus pobre. Ninguém me inspirou ou mandou; mas foi Deus mesmo que me conduziu ao meio dos hansenianos. E tive imensa compaixão deles. Aquilo que antes achava amargo, agora, pelo amor compassivo, se me tornava doce. Comecei a pregar pelos burgos as palavras de Cristo, em língua popular que todos entendiam. Via nos olhos das pessoas que era isso que esperavam e queriam ouvir.

Todos os seres da criação são irmãos e irmãs

Nas minhas andanças me fascinava a beleza das flores, o canto dos passarinhos, o ruído das águas dos riachos. Tirava do caminho poeirento a minhoca para não ser pisada. Entendi que todos tínhamos nascidos do coração do Pai de bondade. Por isso éramos irmãos e irmãs: o irmão fogo, a irmã água, o irmão e Senhor Sol e a irmã e a Mãe Terra e até o irmão lobo de Gubbio.

Muitos antigos companheiros de festas e diversões se juntaram  a mim. Uma bela e querida amiga, Clara de Assis, fugiu de casa e quis compartilhar a nossa vida simples. Começamos um movimento de pobres. Nada levávamos conosco. Apenas o ardor do coração e a alegria do espírito. Trabalhávamos nos campos ou pedíamos esmolas. Queríamos seguir os passos de Cristo humilde, pobre e amigo dos pobres. E o Papa Inocêncio III, mesmo cheio de hesitações, aprovou a nossa opção em 1209 permitindo-nos de pregar por todas as partes o evangelho de Jesus.

Depois de alguns anos, já éramos uma multidão a ponto de eu não saber mais como abrigar e animar tanta gente. O resto da história vocês conhecem. Não preciso repeti-la.  Mais tarde, com o apoio do Papa daquele tempo, criou-se a Ordem dos Frades  Menores, com diversos ramos, que persiste até os dias de hoje.

Vejam, queridos jovens, irmãos e irmãs meus queridos. Tive uma experiência que certamente vocês, como jovens, também tiveram ou estão tendo: de roda de amigos, de festas e de folias. Portanto, temos algo em comum.

Mas aproveito agora, que estou em outra idade e que estamos juntos para dizer-lhes algumas coisas, que considero de suma importância para os tempos atuais.

A Mãe Terra está doente e com febre

A primeira é: como nunca antes, estamos num momento crítico da história da Terra e da Humanidade. O clamor da natureza se faz ouvir de forma cada vez mais forte. Nossa querida Mãe e irmã Terra está doente e com febre, pois, já há muito tempo, a estamos superexplorando. Tiramos dela mais do que ela anualmente pode repor. O ar está contaminado, as águas poluídas, os solos envenenados e nossos alimentos cada vez mais quimicalizados. O aquecimento da Terra não para de aumentar. Milhares de espécies de seres vivos, nossos irmãos e irmãs, estão desparecendo por ano: uma verdadeira devastação, ocasionada pela forma agressiva com a qual nos relacionamos com a natureza, com os seres vivos e a com própria a Terra.

Devemos, urgentemente, fazer uma aliança global de cuidar da Terra e uns e dos outros, caso não quisermos conhecer grandes dizimações que afetarão toda a comunidade de vida. Corremos, portanto, grande risco.  Mas se assumirmos uma responsabilidade solidária e um comportamento de cuidado com tudo o que existe e vive, e assumirmos uma sobriedade compartida, poderemos escapar desta tragédia. E vamos escapar.
Resgatar a razão cordial e sensível

Uma segunda coisa. Preciso dizer-lhes como um irmão mais velho e experimentado. Temos que mudar a nossa mente e o nosso coração. Mudar a mente para olhar a realidade com outros olhos. Os olhos das ciências hoje nos comprovam que a Terra é viva e não apenas algo morto e sem propósito, uma espécie de baú de recursos ilimitados que podemos usar como queremos. Eles são limitados, como a energia fóssil do carvão e do petróleo, a fertilidade dos solos  e as sementes. Ela é mãe generosa. Precisa ser cuidada, amada e respeitada como o fazemos com nossas mães.

Os astronautas, lá da Lua ou de suas naves espaciais, nos testemunharam: Terra e Humanidade são inseparáveis;  formam uma única entidade, indivisível  e complexa. Por isso nós, seres humanos, somos aquela porção da Terra que sente, que pensa, que ama e que venera. Somos Terra e tirados da Terra como nos dizem as primeiras páginas da Bíblia. Mas recebemos uma missão única, como se lê no segundo capítulo do Gênesis: somos colocados no Jardim do Éden, quer dizer, na Mãe Terra, para cuidar e guardar todas as bondades naturais. Somos os guardiães da herança que Deus e o universo nos confiaram e que queremos repassar para nossos filhos e netos, conservada e enriquecida.

Além da mente devemos também mudar  o nosso coração. O coração é o lugar do sentimento profundo, do afeto caloroso e do amor sincero. O coração é o nicho de onde crescem todos os valores e se expressa o mundo das excelências. Junto com a razão intelectual que vocês tanto exercitam na escola, no trabalho e na condução da vida, existe a inteligência cordial e sensível. Ela foi, por muito tempo, colocada sob suspeita, com o pretexto de que ela nos tiraria a objetividade do olhar. Puro engano. Hoje entendemos que precisamos resgatar, urgentemente, a razão cordial e sensível para enriquecer a razão intelectual. Só com a razão intelectual sem a razão cordial não vamos sentir o grito dos pobres, da Terra, das florestas e das águas. Sem a razão cordial não nos movemos para ir ao encontro dos que gritam e sofrem para socorrê-los, oferecer-lhes um ombro e salvá-los. 

Da razão cordial nasce a ética, aquele conjunto de valores que orientam nossa vida.

Por isso, meus queridos jovens, vocês que naturalmente são sensíveis para os grandes sonhos e para o voo na direção das alturas, cultivem um coração que sente, que se comove e que leva à ação salvadora. Essa razão cordial e sensível é mais ancestral que a inteligência intelectual. É ela que nos faz guardar as boas ou más experiências.
Aprender a habitar de forma diferente a Terra

Uma terceira coisa gostaria de dizer-lhes confiadamente: importa inaugurarmos uma forma nova de habitar o planeta Terra. Assim como estamos, não podemos continuar. Até agora habitávamos dominando com o punho fechado e submetendo tudo. A tecnociência servia de grande instrumento de intervenção na natureza. Em quatrocentos anos afetamos as bases naturais que sustentam a nossa vida.  Alimentamos um projeto de ilimitado progresso. E de fato trouxemos notáveis progressos e comodidades para grande maioria da humanidade. Mas hoje estamos conscientes de que a Terra, pequena e limitada, não aquenta um projeto ilimitado. Encostamos nos seus limites. Porque continuamos a forçar estes limites, a Terra responde com tufões, enchentes, secas, terremotos e tsunamis. Esse modelo agressivo de habitar o mundo cumpriu sua missão histórica. A continuar assim, pode nos causar grandes prejuízos e eventualmente ameaçar a espécie humana. Temos que mudar se quisermos sobreviver.

Somos obrigados a ensaiar um novo modo de habitar e de nos relacionar com a natureza e com a Terra. No lugar do punho fechado devemos ter a mão aberta para o cuidado essencial, para o entrelaçamento dos dedos numa aliança de valores e princípios que poderão sustentar um novo ensaio civilizatório.

Precisamos produzir, sim, para atender as necessidades humanas. Mas temos que aprender a produzir respeitando os limites da natureza e da Terra, tirando delas o necessário e o decente para a vida de todos, com justiça e equidade. Será uma sociedade de sustentação de toda a vida. O centro será ocupado pela vida da natureza, pela vida humana e pela vida da Terra.  A economia e a política estarão a serviço mais da vida do que do mercado. E o nosso consumo será marcado pela solidariedade universal e pela sobriedade compartida.

A mudança começa por vocês

Caros jovens: sejam vocês mesmos a mudança que queremos para os outros. Comecem vocês mesmos a viver o novo, respeitando cada um dos seres da natureza, cada planta, cada animal, cada paisagem porque eles possuem um valor intrínseco e em si mesmo, independente do uso racional que fizermos deles. São nossos irmãos e irmãs. Com eles fundaremos uma convivência de respeito, de reciprocidade e de mútua ajuda para que todos possam continuar vivos neste planeta, também os mais vulneráveis para os quais devotaremos mais cuidado e amor.

Queridos irmãos e irmãs jovens: resistam à cultura da acumulação e do consumo. Pensem nos outros irmãos e irmãs que são  milhões e milhões que vivem e dormem com fome e com sede e passando por grandes padecimentos. Nunca, em nenhum dia, deixem de pensar e se preocupar com os pobres e com seu destino dramático, principalmente, das crianças inocentes.

Tenham um consumo solidário. Realizem  os três famosos erres): reduzir, reutilizar e reciclar tudo o que consumirem. E eu acrescentaria ainda um outro erre (r)): rearborizar. Plantem árvores, recuperem zonas desflorestadas. As árvores sequestram os gases poluentes, nos dão sombra, flores e frutos. Façam a experiência de que com menos poderão ser mais e que a felicidade reside não no enriquecimento e numa rentosa profissão, mas  no compartir e no tratar sempre humanamente a todos os humanos, nossos semelhantes.

Mantenham dentro de vocês a chama sagrada  sempre viva

Por fim, caros jovens, irmãos e irmãs meus queridos: nada disso tudo que refletimos terá eficácia se não misturarmos Deus em todos os nossos empreendimentos. Ele não está em parte nenhuma, porque está em todas as partes. Mas está principalmente no coração de vocês. Dentro de cada um de vocês queima uma brasa viva e arde uma chama sagrada: é a presença misteriosa e amorosa de Deus. Ele emerge de  forma sensível no fenômeno do entusiasmo, tão forte na idade de vocês. Entusiasmo significa ter um Deus dentro: é o Deus interior, o Deus companheiro e amigo, o Deus de amor incondicional.

A nossa cultura materialista e consumista cobriu de cinzas esta brasa e ameaça apagar a chama sagrada. Afastem essa cinza através da abertura do coração a esse Deus; reservem cada dia um momento para pensar nele, conversar com ele, queixar-se e chorar diante dele e dirigir-lhe uma súplica. Às vezes não digam nada. Coloquem-se apenas silenciosos diante dele.  Ele poderá lhes falar e lhes suscitar bons sentimentos e luminosas intuições. Nunca abandonem Deus, porque Ele nunca os abandona e abandonará. Vivam como quem se sente na palma de sua mão. E então estarão protegidos porque Ele é o Bom Pastor que vos conduzirá por verdes pastagens para que nada lhes falte. Ele é Pai e Mãe de infinita ternura.

Deus é o “soberano amante da vida” e o nosso grande aliado

Desde que o Filho de Deus por Jesus assumiu a nossa humanidade, ele assumiu também uma parte da Terra e dos elementos do universo. Portanto, estes já foram divinizados e eternizados. Nunca mais serão ameaçados. Mas nós podemos. Consolam-nos  as palavras da revelação dos dizem que Ele, Deus, é “o soberano amante da vida”(Sab 11,24). Ele sempre ama tudo o que um dia criou. Não esquece nenhuma criatura que nasceu de seu coração. Por isso, confiemos todos que Ele vai proteger a nossa querida Mãe Terra e garantir o futuro da vida que é o future de vocês todos.

Não desperdicem o tempo porque ele é urgente. Desta vez, não podemos chegar atrasados nem cometer erros, pois corremos o risco de não termos volta nem formas de correção dos erros cometidos. Mas não percam  o entusiasmo nem esmoreça  a  alegria do coração.  A vida sempre triunfa porque Deus é vivo e nos enviou Jesus que disse ter vindo para trazer vida e vida em abundância.

Era o que queria,  do fundo de meu coração, lhes falar.

Por fim, faço-lhes um pedido muito especial: rezem, apoiem, colaborem com o Papa que leva o meu nome, Francisco. Ele vai restaurar a Igreja de hoje como eu tentei restaurar a Igreja do meu tempo. Sem a ajuda de vocês, se sentirá fraco e terá grandes dificuldades. Mas com o entusiasmo e o apoio de vocês, nos seus  grupos e movimentos, ele vai cumprir a missão que Jesus lhe confiou: conferir um rosto confiável à nossa Igreja e confirmar a todos na fé e na esperança. Com vocês ele será forte e irá conseguir.

Agora,  antes de nos despedirmos, lhes darei a bênção que um dia dei ao meu íntimo amigo Frei Leão, a ovelhinha de Deus: 
Que Deus vos abençoe e vos guarde,
Que Ele mostre sua face e se compadeça de vós.
Que volva o seu rosto para vós e vos dê a paz.
Que Deus vos abençoe. 

Paz e Bem!!!

Francisco, o Poverello e Fratello de Assis.
(*) Este texto faz parte do novo livro do teólogo Leonardo Boff, “Francisco de Assis, Francisco de Roma, uma nova primavera na Igreja?”, que será lançado no dia 16.
Fonte: Franciscanos

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Festas juninas e a ECOLOGIA

Marcelo Barros

Quem acompanha os costumes das várias regiões do Brasil sabe que estes festejos estão ligados a danças tradicionais do meio rural

Em todo o Brasil, junho é marcado pelas festas juninas. Quem acompanha os costumes das várias regiões do Brasil sabe que estes festejos estão ligados a danças tradicionais do meio rural, quando as pessoas viviam uma relação mais forte com a terra. As comidas típicas deste tempo são sinais disso. No Nordeste, o milho é elemento fundamental das festas de junho. No frio do sul, o pinhão cozido e a bebida do quentão fazem parte da alegria. Tanto as danças, como as comidas são símbolos dos antigos cultos à Mãe Terra.

Até o nome do mês de junho é uma homenagem a Juno, deusa-mãe dos antigos romanos, responsável pela fertilidade da terra e pela fecundidade feminina. Nos tempos posteriores, esses ritos da fertilidade assumiram vestes cristãs. O povo dedicou estas festas a Santo Antônio, São João Batista e São Pedro, cujas festas a Igreja celebra em junho. A estes santos o povo atribuiu poderes semelhantes às divindades antigas. Santo Antônio herdou o título de “santo casamenteiro”, São João Batista ficou ligado à fogueira, enquanto São Pedro vê sua festa tomada pelos festejos do boi-bumbá. De fato, na tradição cristã, Santo Antônio se mobilizou pela capacidade de comunicação. São João Batista é comparado no evangelho a um fogo que comunica a luz (Jesus). São Pedro é um exemplo de mártir, ou seja, de alguém que arrisca a vida pela fé. De alguma forma no conflito representado no bumba-meu-boi este elemento de quem dá a vida por amor é preponderante. Assim, na América do Sul, as fogueiras que se acendiam em homenagem ao sol que renasce no solstício do inverno se transformaram em homenagem a São João. As quadrilhas devolvem ao povo mais simples ritos e danças antigas das cortes européias. Até hoje, vemos pobres se chamando uns aos outros de cavalheiros e damas. Pessoas do campo se fantasiam de ricos e dirigem a quadrilha com expressões francesas, por eles reinventadas.

Estas manifestações populares são mais do que apenas uma expressão nostálgica do passado. Vão bem além do turismo comercial que leva multidões a Campina Grande na Paraíba e a Caruaru, em Pernambuco, eleitas como sedes das maiores festas juninas do país. Mesmo já despojados do seu caráter religioso primitivo, estes costumes remetem a ritos pré-cristãos que, hoje, são valorizados novamente não para nos levar a adoração a elementos naturais, mas para descobrirmos a presença divina na terra, na água, no fogo e no ar, assim como em todos os seres vivos. Além da urgência de novas medidas de proteção ao ambiente, a defesa da natureza precisa de uma nova relação de amor do ser humano com a natureza. Isso não surge de forma desligada da ecologia social, isto é, de um mais profundo cuidado com a justiça e as relações entre as pessoas. Mesmo se no plano social e econômico, continuamos a ser desiguais, temos de exercitar uma verdadeira igualdade como cidadãos(ãs). Neste sentido, a participação em ritos como as festas juninas é como ensaio de uma sociedade nova, mais justa e participativa.

Viver profundamente é sinônimo de arriscar novos rumos e abrir-se ao desconhecido. O ser humano é um peregrino da história e sua vida muda quando descobre que seu destino está ligado ao de todas as criaturas do universo. Theillard de Chardin, um dos cientistas pioneiros na arte de ligar fé e ciência, afirmava: “Duvido que haja, para o ser pensante, minuto mais decisivo do que aquele no qual, lhe cai a venda dos olhos e ele descobre que não é um elemento perdido nas solidões cósmicas. Ele vê que uma energia universal de amor à vida converge e se humaniza dentro de seu próprio ser. Cada pessoa não é um centro estático do mundo - como durante muito tempo se julgou – mas eixo e flecha da evolução. Isso é muito mais belo”.

Marcelo Barros é monge beneditino.

terça-feira, 28 de maio de 2013

FESTAS JUNINAS: entenda por que JUNHO é mês de muita diversão


Junho é o mês das festas populares que ganhou inspiração religiosa: Santo Antônio (dia 13), São João Batista (dia 24) e São Pedro (dia 29). São festas que não deixam morrer costumes e tradições do passado: danças, músicas, trajes e comidas típicas.

Existem duas explicações para o termo festa junina. A primeira explica que surgiu em função das festividades ocorrem durante o mês de junho. Outra versão diz que está festa tem origem em países católicos da Europa e, portanto, seriam em homenagem a São João. No princípio, a festa era chamada de Joanina.

No entanto, a origem das comemorações nessa época do ano é anterior à era cristã. No hemisfério norte, várias celebrações pagãs aconteciam durante o solstício de verão. Essa importante data astronômica marca o dia mais longo e a noite mais curta do ano, o que ocorre nos dias 21 ou 22 de junho no hemisfério norte. Diversos povos da Antiguidade, como os celtas e os egípcios, aproveitavam a ocasião para organizar rituais em que pediam fartura nas colheitas. "Na Europa, os cultos à fertilidade em junho foram reproduzidos até por volta do século 10. Como a igreja não conseguia combatê-los, decidiu cristianizá-los, instituindo dias de homenagens aos três santos no mesmo mês", diz a antropóloga Lucia Helena Rangel, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

De acordo com os historiadores, a tradição de comemorar no Brasil o dia de São João veio de Portugal, onde as festas são conhecidas pelo nome de Santos Populares e correspondem a diversos feriados municipais: Santo Antônio, em Lisboa; São Pedro, no Seixal; São João, no Porto, em Braga e em Almada. O curioso é que os índios que habitavam o Brasil antes da chegada dos portugueses também faziam importantes rituais durante o mês de junho. Apesar de essa época marcar o início do inverno por aqui, eles tinham várias celebrações ligadas à agricultura, com cantos, danças e muita comida. Com a chegada dos jesuítas portugueses, os costumes indígenas e o caráter religioso dos festejos juninos se fundiram. É por isso que as festas tanto celebram santos católicos como oferecem uma variedade de pratos feitos com alimentos típicos dos nativos. Já a valorização da vida caipira nessas comemorações reflete a organização da sociedade brasileira até meados do século 20, quando 70% da população vivia no campo.

As festas juninas tiveram grande influência de elementos culturais portugueses, chineses, espanhóis e franceses. Da França veio a dança marcada, característica típica das danças nobres e que, no Brasil, influenciou muito as típicas quadrilhas. Já a tradição de soltar fogos de artifício veio da China, região de onde teria surgido a manipulação da pólvora para a fabricação de fogos. Da península Ibérica teria vindo a dança de fitas, muito comum em Portugal e na Espanha.

Todos estes elementos culturais foram, com o passar do tempo, misturando-se aos aspectos culturais dos brasileiros (indígenas, afro-brasileiros e imigrantes europeus) nas diversas regiões do país, tomando características particulares em cada uma delas.

Festas Juninas no Nordeste

Embora sejam comemoradas nos quatro cantos do Brasil, na região Nordeste as festas ganham uma grande expressão, com destaque para as cidades de Caruaru (PE) e Campina Grande (PB). Como é uma região onde a seca é um problema grave, os nordestinos aproveitam as festividades para agradecer as chuvas raras na região, que servem para manter a agricultura.

Comidas típicas

Como o mês de junho é a época da colheita do milho, grande parte dos doces, bolos e salgados, relacionados às festividades, são feitos deste alimento. Pamonha, curau, milho cozido, canjica (ou mungunzá), cuscuz, pipoca, bolo de milho são apenas alguns exemplos. Além das receitas com milho, também fazem parte do cardápio desta época: arroz doce, bolo de amendoim, bolo de pinhão, bombocado, broa de fubá, cocada, pé-de-moleque, quentão, vinho quente, batata doce e muito mais.
A alegria das festas juninas

O que caracteriza essas festas é que elas mantêm a pureza e a beleza iniciais, desafiando modismos ou inovações. Ainda hoje são celebradas com entusiasmo, com comidas e bebidas típicas, com trajes caipiras e danças, sobretudo da quadrilha.

Não existem entidades que as organizam. São espontâneas. O poder público nelas não interfere. Surgem nas ruas, escolas, igrejas, nos centros comunitários e nos ambientes familiares. São festas sadiamente alegres. Uma alegria que nasce nos corações que amam a vida, o trabalho, o bem. Uma alegria cheia de esperanças. Uma alegria que é expressão de vida realizada no cumprimento da missão do dia-a-dia. Uma alegria que ninguém pode roubar, porque vem de dentro.

As festas juninas são festas com amigos. Na família, na rua. na comunidade. Santo Antônio. São João e São Pedro estão presentes nelas como traço de união entre amigos na comunhão da nossa fé e na participação da mesma luta por uma convivência mais fraterna entre os homens.

A alegria, marca das festas populares, é também uma virtude cristã, pois Deus quer filhos felizes e alegres, mesmo em meio a tantas dificuldades pelas quais passa nosso povo. Por isso São Paulo insistia: "Alegrai-vos, mais uma vez exorto, alegrai-vos!" Que as nossas comunidades saibam valorizar as festas juninas como serviço á fraternidade e como manifestação autêntica da verdadeira alegria.

sábado, 18 de maio de 2013

AUXÍLIO-RECLUSÃO: A VERDADE, não contada pelas correntes da internet


Essa informação pode não ser muito útil para quase a totalidade dos meus leitores. Mas resolvi publicar, pois há muitas MENTIRAS em relação ao AUXÍLIO-RECLUSÃO (erradamente chamado de "bolsa-bandido" ou coisa parecida). Essas distorções são provocadas pela má-fé de alguns, pela falta de conhecimento de outros, e ainda pela má interpretação da legislação.

De antemão, essas são as principais informações a respeito do assunto:
  • Esse auxílio é pago aos DEPENDENTES LEGAIS (familiares) do preso DE BAIXA RENDA que era contribuinte da Previdência (INSS) antes da prisão. O preso não recebe qualquer benefício.
  • Embora existam, aproximadamente, 550.000 detentos no Brasil, foram pagos apenas 40.519 benefícios de auxílio-reclusão aos familiares de presos (7% dos casos). Ou seja, é um auxílio que está longe de atingir 100% dos casos, e nunca irá atingir por envolver várias exigências para que esse auxílio seja concedido.
  • O valor de R$ 971,78 (de acordo com portaria vigente) não é o valor do benefício, mas o valor máximo, sendo que o valor mínimo é o SALÁRIO MÍNIMO. O valor do auxílio devido à família beneficiária dependerá da contribuição que o segurado-preso fez à Previdência Social: se ele contribuiu mais, a família dele receberá mais, até chegar ao valor máximo de R$ 971,78. De acordo com o Boletim Estatístico da Previdência Social (Beps), o valor médio do benefício concedido aos familiares dos presos contribuintes da Previdência Social foi de R$ 727,79.
  • Se o preso que for SEGURADO DA PREVIDÊNCIA SOCIAL tiver vários dependentes, o valor do benefício SERÁ DIVIDIDO entre eles. Afinal, muitas vezes a família nada tem a ver com o crime daquele que a sustenta, e os familiares não merecem ser punidos por isso.
  • A família pode perder direito ao benefício, desde que o segurado-preso fuja, obtenha sua liberdade ou progressão da pena para regime aberto.
  • O trabalhador que paga suas contas em dia e nunca roubou pode ser preso, por exemplo, se for comprovado que ele matou por atropelamento após dirigir perigosamente (com imprudência) ou com imperícia.
Acompanhe COM ATENÇÃO os esclarecimentos a respeito desse benefício.
Primeiramente, para ter direito ao auxílio-reclusão, é necessário que o preso seja ou tenha sido contribuinte da Previdência Social como qualquer trabalhador (ou seja, tenha recolhido a contribuição do INSS) e esteja na qualidade de “segurado” no momento em que é detido ou recluso na prisão.

Além disso, o salário de contribuição do detento deve ter sido igual ou inferior a R$ 971,78 (segundo Portaria Interministerial MPS/MF nº 15). Ou seja, se o salário-de-contribuição do detento for superior a esse valor, NÃO HAVERÁ CONCESSÃO DE AUXÍLIO-RECLUSÃO. O valor divulgado aqui não corresponde ao valor do benefício, mas ao valor máximo do salário-de-contribuição para que o benefício seja concedido, e também ao valor máximo do benefício.

O valor do auxílio-reclusão é dividido entre seus beneficiários (dependentes legais), que podem ser o cônjuge ou companheiro, filhos menores de 21 anos ou inválidos, pais ou irmãos não emancipados.

O valor desse benefício varia apenas em função do salário-de-contribuição do segurado detido, e não deve superar o valor de R$ 971,78 (conforme a atual portaria). Logo, se o preso tiver três dependentes, forem preenchidos os requisitos legais e o valor do benefício for, por exemplo, de R$ 750, cada dependente receberá R$ 250.

O auxílio-reclusão é devido AOS DEPENDENTES DO SEGURADO PRESO (e não aos próprios “criminosos”), desde que o segurado recolhido à prisão não receba qualquer remuneração da empresa, abono ou benefício (aposentadoria, auxílio-doença, etc.). O objetivo é garantir a sobrevivência do núcleo familiar, diante da ausência temporária (prisão) da pessoa responsável pelo seu sustento. Em outras palavras, a finalidade do auxílio-reclusão é manter o sustento das pessoas que dependem economicamente daquele detento (filhos, cônjuge, etc.).

Por mais que um detento ou uma detenta contribuinte-segurado da Previdência Social seja culpado por um crime, o Estado não deve penalizar os familiares dele/dela, devendo garantir-lhes, pelo menos, o atendimento ao mínimo necessário às suas sobrevivências. Se estes já dispõem de condições de subsistência, não haverá obrigação do Estado em relação a esses familiares.

O princípio do auxílio-reclusão é a PROTEÇÃO À FAMÍLIA: se o segurado está preso, impedido de trabalhar, a família tem o direito de receber o benefício para o qual ele contribuiu. Portanto, o benefício é regido pelo direito que a família tem sobre as contribuições do segurado feitas ao Regime Geral da Previdência Social.

O benefício só é mantido enquanto o segurado estiver sob os regimes fechado ou semiaberto. Se ele fugir, o direito ao benefício é suspenso.

Logo, HÁ VÁRIAS CONDIÇÕES PARA QUE OS DEPENDENTES DO "SEGURADO" DE BAIXA RENDA RECOLHIDO À PRISÃO POSSAM RECEBER O AUXÍLIO-RECLUSÃO. Conforme exposto, a concessão do benefício é bastante criteriosa, TODAS AS CONDIÇÕES DEVEM SER PREENCHIDAS.

Desta forma, necessária se faz uma ponderação acerca dos inflamados discursos promovidos em correios-eletrônicos e redes sociais, uma vez que o auxílio-reclusão é um benefício previdenciário fundamental, não para “sustentar vagabundos”, e sim para não deixar desamparadas milhares de famílias que, em decorrência de um recolhimento à prisão, perdem grande parte ou até mesmo a totalidade de sua renda.
Fontes:

quinta-feira, 9 de maio de 2013

SEPÉ TIARAJU, heroi nacional: Um índio que o povo canonizou

 
Passaram-se pouco mais de 250 anos do martírio de Sepé Tiaraju, um cacique guarani que, no século XVIII, liderou o povo indígena na defesa das suas terras ancestrais e na luta de resistência contra Portugal e Espanha. Há alguns anos, constatei que, fora do Rio Grande do Sul, poucas pessoas conhecem a saga deste índio que deu a sua vida pelo povo. Mesmo intelectuais e professores de História me confessaram nunca ter ouvido falar de Sepé Tiaraju. Até hoje, ainda aprendemos a história do nosso país, contada a partir do ponto de vista de quem venceu. Na realidade atual do Brasil, lavradores sem-terra, grupos indígenas e movimentos populares celebram a memória de Sepé Tiaraju e querem que sua figura e mensagem se tornem conhecidas no Brasil. Sentem a necessidade de retomar, hoje, a mesma mística pela qual Sepé Tiaraju deu a vida e que, hoje, mobiliza toda a América Latina, a partir do conceito largo de “revolução bolivariana”, um processo de transformação não violento e baseado na educação popular.

O contexto no qual São Sepé foi outro e ele teve de tomar armas para defender o seu povo indígena. Em seu idioma original, o termo Guarani significa guerreiro. De 1610 até 1750, os padres jesuítas reuniram esses guerreiros, homens e mulheres para formar comunidades indígenas pacíficas e prósperas. Os Guarani endereçaram suas energias para construir casas, consolidar técnicas de agricultura avançadas para a época. Chegaram ao ponto de imprimir livros, fundir sinos de bronze, fabricar violinos e compor música para tocá-los. A chamada “República dos Guaranis” era formada por Sete Povos no Rio Grande do Sul e mais 26 pueblos, em território que, hoje, pertence à Argentina e ao Paraguai. A Paz resultava do trabalho comunitário e cooperativo, cujos frutos eram divididos entre todos os habitantes. Ao contrário do que ocorria no resto do continente, não existiam fortes desigualdades sociais. Não se permitia a convivência da riqueza com a miséria. Na França da época, Voltaire, intelectual extremamente crítico ao clero, sentiu-se obrigado a reconhecer: “A experiência cristã das Missões Guaranis representa um verdadeiro triunfo da humanidade”.
Esta experiência comunitária, com elementos socialistas, provocou o medo aos impérios coloniais. Em 1750, Portugal e Espanha assinaram o Tratado de Madri, pelo qual as duas potências trocavam o território dos Sete Povos das Missões pela Colônia do Sacramento. Os dois impérios se puseram de acordo em expulsar mais de 50 mil índios dos seus aldeamentos, obrigando-os a abandonar suas casas, plantações, igrejas e comunidades. Sepé, o “Facho de Luz”, era corregedor da Redução de São Miguel, ou seja, prefeito da cidade, eleito pelos índios. Insurgindo-se contra esse acordo dos grandes para destruir os pobres, Sepé Tiaraju liderou a resistência dos guaranis, repetindo sempre a frase, decantada no Sul do Brasil, em prosa e verso: “Esta terra tem dono”.

Esta luta dos guarani foi contada de modo romanceado pelo filme “A Missão”. Infelizmente, na realidade histórica, os padres jesuítas foram obrigados por seus superiores religiosos, pressionados pelos governos, a abandonar as aldeias indígenas antes do massacre. E os índios enfrentaram, sozinhos, os dois exércitos imperiais de Portugal e Espanha reunidos.

Ao final da luta, enfrentando tropas portuguesas, Sepé Tiaraju foi aprisionado. Pediu para falar com o comandante inimigo. Este o recebeu depois de mandar amarrá-lo e tirar suas roupas para humilhá-lo. Acolheu-o dizendo:

-- Não costumo conversar com selvagens.

Sepé respondeu na língua portuguesa:

-- O senhor está invadindo minha terra, matando crianças e mulheres grávidas e eu é que sou selvagem...

O general mandou retirá-lo de sua presença.

À noite, ninguém sabe como, Sepé Tiaraju fugiu da prisão. Mas, poucos dias depois, em um combate em que ele percebeu que muitos índios iriam morrer, ele preferiu colocar-se no ponto mais arriscado da luta e tombou morto. Era o dia 7 de fevereiro de 1756. Poucos meses depois, nada mais existia do sonho missionário de uma sociedade comunitária cristã, mas o povo do Sul do Brasil, por sua própria conta, canonizou o herói guarani e o homenageou com o nome de uma cidade: São Sepé.

Um fato que, nos últimos dez anos, tem marcado o continente latino-americano tem sido o fortalecimento de um movimento indígena continental e a ressurreição de muitos povos e comunidades que eram consideradas extintas. Esta emergência social, cultural e em alguns países como Bolívia e Venezuelana, também política, tem permitido a toda humanidade beneficiar-se com a sabedoria ancestral destes povos originários que muito nos podem ajudar a salvar ao planeta e a nós mesmos.

Em 2012, o nome do indígena missioneiro SEPÉ TIARAJU foi inscrito no LIVRO DOS HERÓIS DA PÁTRIA, que se encontra no Panteão da Liberdade e da Democracia, na Praça dos Três Poderes, em Brasília. Desde então, o nome de Sepé Tiaraju, por lei, passa a figurar no Livro dos Heróis da Pátria, ao lado de personalidades históricas como Tiradentes, Zumbi dos Palmares, Santos Dumont e D. Pedro I.

“As Missões Guaranis já haviam recebido o título de Triunfo da Humanidade por parte de Voltaire, ainda no século XVIII. As ruínas de São Miguel foram consideradas Patrimônio da Humanidade, por parte da UNESCO, em 1979. Agora, chegou a vez de prestarmos o devido reconhecimento à história de coragem e luta pelo direito à terra de nosso herói Sepé Tiaraju”, comemorou Marco Maia.
Fontes: Adital e CNBB Sul 3