quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Nosso compromisso deve ser com a PAZ


AS BEM-AVENTURANÇAS

As bem-aventuranças são um impressionante resumo das promessas e compromissos do Reino que Jesus veio anunciar. E significativo o termo "bem-aventurados". Bem-aventurado quer dizer feliz. E a felicidade no Céu para quem cumpriu bem seu papel na terra? Sim, mas é também um caminho para sermos felizes aqui mesmo. Temos que criar um mundo mais feliz, entre outras coisas, porque é nesse mundo que temos que viver. Bem-aventurado é quem sabe que sua vida faz diferença para melhor. Não há alegria mais pura, mesmo quando "fazer diferença" exige esforço, sacrifícios. E o que Paulo chama de "bom combate". Vale a pena. Todo o bem que construímos para outros torna melhor e mais seguro o mundo em que nós mesmos vivemos. O que Deus nos propõe é um modo mais inteligente de viver. E não poderia ser diferente: Deus é a fonte de toda a sabedoria.

"Felizes os pobres de coração: deles é o Reino dos Céus" (Mt 5,3)

Coração de pobre, nesse caso, é vida desapegada de ambições egoístas. O egoísmo é pai da indiferença e da exploração, não permite a solidariedade nem as alegrias da partilha. Quando o dinheiro se torna senhor na vida de alguém, não há espaço nem para a sociedade nem para a consideração de valores humanos presentes nos outros. O mundo fica muito triste quando todos (ricos ou não) só pensam em ter sempre mais, a qualquer preço.

"Felizes os que choram: eles serão consolados" (Mt 5,4)

Quereria Deus que vivêssemos chorando? Pelo contrário, quer a consolação, a devolução da alegria diante dos sofrimentos. Há os que choram porque sofrem - e Deus nos pede que sejamos consolo, socorro, cura, para eles e elas. Mas há também os(as) que choram solidariamente diante das dores alheias. E, sentindo como suas essas dores, mobilizam-se, agem, participam da superação do sofrimento. Esses(as) acham consolo e sentido para a vida, e tornam-se construtores de algo bom. No dia em que soubermos todos(as) chorar juntos haverá muito menos motivo para lágrimas.

"Felizes os mansos: seu quinhão será a terra" (Mt 5,5)

Às vezes nos parece que a vida é o contrário do que aí se diz. Não são os(as) violentos(as), os(as) agressores(as), que se apossam de tudo? Mas a sabedoria de Deus permanece certa: o que se conquista com violência só se mantém com mais violência - e num mundo violento ninguém está seguro(a). Viver sem medo é o modo mais humano de realmente possuir algo que valha a pena. E só se vive sem medo num mundo onde todos(as) têm direitos respeitados.

"Felizes os que têm fome e sede da justiça: eles serão saciados" (Mt 5,6)

Ter fé é também acreditar que o projeto de Deus será realizado, que algo invencível no universo conspira a favor do bem. A luta pela justiça, antes mesmo de produzir os frutos de fraternidade, de superação da violência, de direitos resguardados, tem um resultado imediato: dá sentido à vida dos(as) que nela se empenham, faz de nós pessoas melhores, confere um emocionante sabor a tudo que fazemos. Nesse sentido, já é uma vitória, antes mesmo de vermos a justiça que queremos - e que acontecerá, porque Deus o quer. Deus é nosso parceiro. Estar com Ele já é uma fonte de alegre realização humana.

"Felizes os misericordiosos: eles alcançarão misericórdia" (Mt 5,7)

Sabiamente, Jesus está nos lembrando de que todos(as) nós, de um modo ou de outro, agora mesmo ou daqui a pouco, precisamos de misericórdia. Temos duas opções: criamos um mundo onde ninguém perdoa ninguém, onde ninguém se compadece de ninguém - e sofremos as conseqüências, ou somos solidários(as) com quem precisa de ajuda, criando um modo de viver onde sempre haverá uma mão amiga estendida a quem precisa. Em que ripo de mundo preferimos viver? De que jeito temos mais condições de nos sentir em paz? Solidariedade e paz.

"Felizes os corações puros: eles verão a Deus" (Mt 5,8)

Coração puro é vida limpa, transparente, sem intenções desonestas, sem fingimentos para levar vantagem. Com essa pureza, as relações humanas se tornam verdadeiras, as máscaras caem e as pessoas podem se amar de verdade. Jesus diz que essas pessoas de coração puro verão a Deus. Verão a Deus na vida eterna no Céu, como recompensa? Também, mas bem antes disso estarão vendo a Deus no outro, nos irmãos, em cada filho e filha do Pai comum de todos nós. Essa presença constante de Deus transfigura a vida, começando agora mesmo neste mundo.

"Felizes os que promovem a paz: eles serão chamados filhos de Deus" (Mt 5,9)

Mesmo quem faz a guerra vive falando de paz. E que todos(as) de algum jeito percebem onde está a verdadeira felicidade, mesmo quando se perdem e tomam outro caminho. O mundo quer pessoas empenhadas autenticamente pela paz, embora muitas vezes tome difícil a vida delas. Ser sinal de paz é ser sinal do amor de Deus na família, no mundo do trabalho, na sociedade, nas Igrejas. Não é paz de mentira, domesticadora, que finge que não vê o que está errado e pede que os(as) injustiçados(as) se conformem em nome de uma falsa tranqüilidade. E buscar o melhor por meios firmes, perseverantes e pacíficos, sem permitir que o mal nos transforme, como convém a quem quer ser identificado(a) como filho(a) de Deus.

"Felizes os perseguidos por causa da justiça: deles é o Reino dos Céus" (Mt 5,10)

Nem mesmo as dificuldades e perseguições acabam com a alegria de estar a serviço do que é bom, justo, certo. O mundo chama de grandes homens e grandes mulheres os que mostraram fibra para construir o melhor, vencendo dificuldades. Certos obstáculos são desafios educativos para uns(umas) e fonte de derrota para outros(as).Sempre temos que escolher: queremos crescer cada vez que aparece uma tarefa importante. Justa, porém difícil? Ou queremos ser eternos derrotados, que se deixam transformar para pior, que se acomodam, que não deixam marcas positivas?

O texto das bem-aventuranças conclui lembrando que o próprio Jesus está envolvido nas perseguições e dificuldades enfrentadas por aqueles(as) que o seguem, e que esse já havia sido o modo de vida dos profetas. Mas é possível continuar falando em felicidade, em recompensa, porque não há vitória possível quando a gente se conforma com o pior, com o que não está certo, com o que causa sofrimento injusto. Todos(as) queremos ser felizes. O bem mais precioso é a nossa própria vida. Nossa felicidade depende do que fazemos com a vida que Deus nos deu. Haverá felicidade maior do que saber que todo dia crescemos, nos tornamos melhores e, com a graça de Deus, fazemos o mundo ser melhor para outros?


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