quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Cristianismo e preconceito: nada a ver!

Superar preconceitos
Dom Demétrio Valentini, bispo de Jales


O Evangelho de Cristo revela sua originalidade na força em derrubar velhos preconceitos. (...) Basta trazer as realidades à luz do Evangelho, e começam a ser vistas de maneira mais humana e verdadeira, livre de preconceitos.

O que mais admira nos posicionamentos de Cristo é constatar como ele não se deixou aprisionar pelas teias dos preconceitos que havia em seu tempo. Soube desfazer as amarras das normas arcaicas do puro e do impuro, da observância cega do sábado, e das prevenções hipócritas dos escribas e fariseus.

O Evangelho nos oferece um exemplo típico da lenta e persistente superação de preconceitos, que Jesus empreendeu conscientemente e levou adiante com tenacidade. Trata-se da superação dos preconceitos contra os samaritanos.

O próprio Evangelho constata que "os judeus, com efeito, não se dão com os samaritanos" (Jo 4,9). Pois bem, mesmo assim, Jesus decide passar pela Samaria. Ele começa por aí.

O Evangelho enfatiza que Jesus "precisava passar pela Samaria" (Jo 4,4). Na verdade, não precisava, não. Aliás, todos preferiam desviar a Samaria, subindo à Galiléia pelo vale do Jordão, e não pelas montanhas da Samaria. Este "precisava", portanto, fazia parte dos planos conscientes de Jesus. Ele começava a desmontar um velho preconceito. Seriam necessárias muitas marteladas para moldar um novo relacionamento entre judeus e samaritanos.

Chegando na Samaria, Jesus soube proporcionar o surpreendente diálogo com a Samaritana. Sobre ela pesava uma dupla carga: era mulher, e samaritana. Jesus enfrentou a situação com serenidade, paz de espírito e abertura de coração. Os próprios discípulos se surpreendem vendo o Mestre detido em conversa com uma mulher. Ficam atônitos e sem palavras.

Em seguida, Jesus aceita ficar dois dias na aldeia dos samaritanos. Fato impensável para a mentalidade daquele tempo. Em outro episódio, quando os próprios samaritanos, por sua vez, manifestam seu preconceito contra os judeus e não querem oferecer hospitalidade, Jesus sai em sua defesa, e repreende os discípulos que pensavam em represálias. "Não sabeis de que espírito sois!", adverte Jesus.

Ele não perdia oportunidade de elogiar os samaritanos. Ao contar a história dos dez leprosos, sublinhou que o único a agradecer era samaritano.

Mas o arremate final no desmonte deste preconceito Jesus o deu ao contar a história conhecida como a "parábola do bom samaritano" (Lc 10,29-37). O sacerdote e o levita passam ao largo do homem caído à beira do caminho, vítima dos assaltantes. Só o samaritano tem compaixão dele.

Pois bem, tal era o preconceito, que todos ligavam os samaritanos à idéia do mal. Na cabeça do povo só havia "maus samaritanos". Jesus inverte o preconceito, e realiza uma transformação semântica mais difícil do que mudar água em vinho, como tinha feito em Caná. Ele cunhou a imagem do "bom samaritano".

Assim, samaritano passou a ser sinônimo de bom, compassivo, solícito. Agora, até a Igreja quer ser "samaritana".

Tal a força do Evangelho. Ele derruba preconceitos. Mas aí vem a grave questão: nossa evangelização continua derrubando preconceitos, ou continua vendendo preconceitos?

Mais ainda: a Igreja, como toda instituição, corre o risco de consolidar preconceitos, para justificar sua organização tradicional. Os preconceitos firmados servem de apoio à ordem estabelecida.

É o caso da posição das mulheres na Igreja. O próprio Evangelho já teria munição suficiente para inverter o preconceito que ainda pesa sobre elas. Mas, além disto, o Novo Testamento traz relatos muito elucidativos, mostrando como o Espírito foi abrindo os olhos da Igreja, para que ela superasse preconceitos que já não tinham mais sustentação, e que eram impedimento para o próprio Evangelho.

A batalha de Cristo não terminou. Seu Evangelho precisa continuar derrubando preconceitos.

Ver também os seguintes escritos do bispo sobre as eleições: "Resguardar valores" e "Desmonte de uma falácia".

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